Quando Anésio Fraga deixou o corpo físico, ele, que fora sempre considerado puro entre os homens, atingiu a Fronteira do Mundo Espiritual à semelhança de um lírio, tal a brancura de sua bela vestimenta.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
PUREZA EM BRANCO
Quando Anésio Fraga deixou o corpo físico, ele, que fora sempre considerado puro entre os homens, atingiu a Fronteira do Mundo Espiritual à semelhança de um lírio, tal a brancura de sua bela vestimenta.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O HOMEM E O BOI
Um anjo de longínquo sistema, interessado em conhecer os variados
aspectos e graus da razão na inteligência Universal, pousou num
campo terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e
um boi. Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de
sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao
Supremo Senhor. Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de
tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo,
aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava. Examinou as
pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade. Sondou os olhos
do boi e encontrou calma e paz. Usando o critério que lhe era
particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao
homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu
mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu com
perfeição, movimentando-se, humilde, mas o companheiro bípede gritou,
espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam corar uma pedra.
Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência. O educado bisneto da
selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante. Todavia, o
irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do
colaborador de quatro patas. Acabrunhado agora, diante da cena triste,
o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício. O servo bovino
obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em
ser útil, distraído das próprias chagas. O administrador humano,
contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar
lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta... Sensibilizadíssimo, o fiscal
celeste anotou o que supôs conveniente aos fins que o traziam e
afastou-se, preocupado. Não atravessara grande distância e encontrou
uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la. Sob impressão
indefinível, emitiu apelos à renúncia. A mãe bovina atendeu com
resignação heroica, prosseguindo firme na posição de quem sabia
sacrificar-se, mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os
analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz,
esbofeteou o úbere da vaca, desabafando-se. O funcionário dos altos
céus, compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns
centímetros, agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou
desvairado, caluniando-a... - Queres escoicear-me, não é? - gritou,
diabólico. Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala
rústica e esbordoou-lhe os chifres. Emocionado, o anjo vivificou as
energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as
bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor,
conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que
desejava e retirou-se. Prestes a desferir voo, firmamento a fora,
encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena. Cumprimentaram-se,
fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem. Não
ocultou, porém, a surpresa de que se possuía. Relacionou os objetivos
que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão
na pureza e na virtude: - Estou satisfeito com a elevação sentimental
das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade,
renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo,
auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores. O anjo da ordem
terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos
homens. O outro, no entanto, prosseguiu: - Tive ocasião de presenciar
comovedores testemunhos. Pesa-me confessá-lo, porém: não posso
concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se
movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os
acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe
o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se
encontram, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o
propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas,
a fim de modificarmos o quadro reinante. Assinalando-lhe os conceitos,
o companheiro solicitou explicações mais claras. O anjo estrangeiro
convidou-o a verificações diretas. O protetor da Terra, desapontado,
esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta
Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da
compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio,
absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo.
Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino
gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados
no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras... O
forasteiro dos céus mais altos, sem dissimular o assombro, considerou:
- Então, o problema é muito pior... Pensou, pensou e aduziu:
- Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada.
Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais
delonga e concluiu: - Apresentarei relatório diferente. Mas ainda não
se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois
levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói
humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que
os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...
aspectos e graus da razão na inteligência Universal, pousou num
campo terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e
um boi. Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de
sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao
Supremo Senhor. Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de
tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo,
aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava. Examinou as
pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade. Sondou os olhos
do boi e encontrou calma e paz. Usando o critério que lhe era
particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao
homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu
mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu com
perfeição, movimentando-se, humilde, mas o companheiro bípede gritou,
espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam corar uma pedra.
Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência. O educado bisneto da
selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante. Todavia, o
irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do
colaborador de quatro patas. Acabrunhado agora, diante da cena triste,
o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício. O servo bovino
obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em
ser útil, distraído das próprias chagas. O administrador humano,
contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar
lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta... Sensibilizadíssimo, o fiscal
celeste anotou o que supôs conveniente aos fins que o traziam e
afastou-se, preocupado. Não atravessara grande distância e encontrou
uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la. Sob impressão
indefinível, emitiu apelos à renúncia. A mãe bovina atendeu com
resignação heroica, prosseguindo firme na posição de quem sabia
sacrificar-se, mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os
analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz,
esbofeteou o úbere da vaca, desabafando-se. O funcionário dos altos
céus, compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns
centímetros, agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou
desvairado, caluniando-a... - Queres escoicear-me, não é? - gritou,
diabólico. Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala
rústica e esbordoou-lhe os chifres. Emocionado, o anjo vivificou as
energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as
bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor,
conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que
desejava e retirou-se. Prestes a desferir voo, firmamento a fora,
encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena. Cumprimentaram-se,
fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem. Não
ocultou, porém, a surpresa de que se possuía. Relacionou os objetivos
que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão
na pureza e na virtude: - Estou satisfeito com a elevação sentimental
das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade,
renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo,
auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores. O anjo da ordem
terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos
homens. O outro, no entanto, prosseguiu: - Tive ocasião de presenciar
comovedores testemunhos. Pesa-me confessá-lo, porém: não posso
concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se
movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os
acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe
o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se
encontram, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o
propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas,
a fim de modificarmos o quadro reinante. Assinalando-lhe os conceitos,
o companheiro solicitou explicações mais claras. O anjo estrangeiro
convidou-o a verificações diretas. O protetor da Terra, desapontado,
esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta
Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da
compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio,
absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo.
Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino
gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados
no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras... O
forasteiro dos céus mais altos, sem dissimular o assombro, considerou:
- Então, o problema é muito pior... Pensou, pensou e aduziu:
- Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada.
Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais
delonga e concluiu: - Apresentarei relatório diferente. Mas ainda não
se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois
levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói
humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que
os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
DAR E DEIXAR
Quando Cirilo Fragoso bateu às portas da Esfera Superior e foi atendido por um anjo que velava, solícito, com surpresa verificou que seu nome não constava entre os esperados do dia.
– Fiz muita caridade – alegou, irritadiço –, doei quanto pude. Protegi os pobres e os doentes, amparei as viúvas e os órfãos. Quanto fiz lhes pertence. Oh! Deus, onde a esperança dos que se entregaram às promessas do Cristo?
E passou a choramingar em desespero, enquanto o funcionário celestial, compadecidamente, lhe observava os gestos.
Fragoso traduzia o próprio pesar com a boca, no entanto, a consciência, como que instalada agora em seus ouvidos, instava com ele a recordar.
Inegavelmente, amontoara vultosos bens. Atingira retumbante êxito nos negócios a que se afeiçoara e desprendera-se do corpo terrestre no cadastro dos proprietários de grande expressão. Não conseguira visitar pessoalmente os necessitados, porque o tempo lhe minguava cada dia, na laboriosa tarefa de preservação da própria fortuna, jamais obtivera folgas para ouvir um indigente, nunca pudera dispensar um minuto às mulheres infelizes que lhe recorriam à casa, entretanto, prevendo a morte que se avizinhava, inflexível, organizara generoso testamento. E assim, agindo à pressa, não se esquecera das instituições piedosas das quais possuía vago conhecimento, inclusive as que ele pretendia criar. Por isso, em quatro dias, dotara-as todas com expressivos recursos, encomendando-se-lhes às preces.
Não se desfizera, pois, de tudo, para exercer o auxilio ao próximo? Não teria sido, porém, mais aconselhável praticar a beneficência, antes da atribulada viagem para o túmulo?
Notando que o coração e a consciência duelavam dentro dele, rogou à entidade angélica tornasse em consideração a legitimidade das suas demonstrações de virtude, reafirmando que a caridade por ele efetuada deveria ser passaporte justo ao acesso ao paraíso.
O benfeitor espiritual declarou respeitar-lhe o argumento, informando, porém, que só mediante provas tangíveis advogar-lhe-ia a causa, junto aos poderes celestes. Trouxesse Fragoso a documentação positiva daquilo que verbalmente apontava e defender-lhe-ia a entrada no Paço da Eterna Luz.
Cirilo deu-se pressa em voltar à Terra e, aflito, extraiu as notas mais importantes, com referência aos legados que fizera às associações pias, presentes e futuras, nas derradeiras horas do corpo, e retornou à presença do amigo espiritual, diante de quem leu em voz firme e confiante:
– Para os velhinhos de diversos refúgios, deixei quatrocentos mil cruzeiros.
Para os doentes de várias agremiações, deixei oitocentos mil cruzeiros.
Para a instalação de um hospital de câncer, deixei seiscentos mil cruzeiros.
Para a fundação do Instituto São Damião, em favor dos leprosos, deixei trezentos mil cruzeiros.
Para a assistência à infância desvalida, deixei quinhentos mil cruzeiros.
Para meus empregados, deixei quatro casas e seis lotes de terras, no valor de um milhão e duzentos mil cruzeiros.
Em mãos do meu testamenteiro, deixei, desse modo, a importância total de três milhões e oitocentos mil cruzeiros, para a realização de boas obras.
Terminada a leitura, reparou que o anjo não se mostrava satisfeito.
Em razão disso, perguntou, ansioso:
– Não terei cumprido, assim, os preceitos de Jesus?
O interpelado, porém, aclarou, triste:
– Fragoso, é preciso pensar. Segundo o Evangelho, bem-aventurado é aquele que dá com alegria. Mas, realmente, você não deu. Suas anotações não deixam margem a qualquer dúvida. Você simplesmente deixou. Deixou, porque não podia trazer.
E porque Cirilo entrasse em aflitiva expectação, o anjo rematou:
– Infelizmente, seu lugar, por enquanto, ainda não é aqui.
De conformidade com os ensinamentos do Mestre Divino, onde situamos o tesouro de nossa vida aí guardaremos a própria alma. Seu testamento não exprime libertação. Quem dá, serve e passa. Quem deixa, larga provisoriamente. Você ainda não se exonerou das responsabilidades para com o dinheiro. Volte ao mundo e ampare aqueles a quem você confiou os bens que lhe foram emprestados pela Providência Divina e, ajudando-os a usá-los na caridade verdadeira, você conhecerá, com experiência própria, o desprendimento da posse. A morte obrigou-o a deixar. Agora, meu amigo, cabe-lhe exercitar a ciência de dar com alma e coração.
Foi assim que Cirilo Fragoso, embora acabrunhado, regressou à esfera dos homens, em espírito, a fim de aprender a beneficência com alicerces na renúncia.
– Fiz muita caridade – alegou, irritadiço –, doei quanto pude. Protegi os pobres e os doentes, amparei as viúvas e os órfãos. Quanto fiz lhes pertence. Oh! Deus, onde a esperança dos que se entregaram às promessas do Cristo?
E passou a choramingar em desespero, enquanto o funcionário celestial, compadecidamente, lhe observava os gestos.
Fragoso traduzia o próprio pesar com a boca, no entanto, a consciência, como que instalada agora em seus ouvidos, instava com ele a recordar.
Inegavelmente, amontoara vultosos bens. Atingira retumbante êxito nos negócios a que se afeiçoara e desprendera-se do corpo terrestre no cadastro dos proprietários de grande expressão. Não conseguira visitar pessoalmente os necessitados, porque o tempo lhe minguava cada dia, na laboriosa tarefa de preservação da própria fortuna, jamais obtivera folgas para ouvir um indigente, nunca pudera dispensar um minuto às mulheres infelizes que lhe recorriam à casa, entretanto, prevendo a morte que se avizinhava, inflexível, organizara generoso testamento. E assim, agindo à pressa, não se esquecera das instituições piedosas das quais possuía vago conhecimento, inclusive as que ele pretendia criar. Por isso, em quatro dias, dotara-as todas com expressivos recursos, encomendando-se-lhes às preces.
Não se desfizera, pois, de tudo, para exercer o auxilio ao próximo? Não teria sido, porém, mais aconselhável praticar a beneficência, antes da atribulada viagem para o túmulo?
Notando que o coração e a consciência duelavam dentro dele, rogou à entidade angélica tornasse em consideração a legitimidade das suas demonstrações de virtude, reafirmando que a caridade por ele efetuada deveria ser passaporte justo ao acesso ao paraíso.
O benfeitor espiritual declarou respeitar-lhe o argumento, informando, porém, que só mediante provas tangíveis advogar-lhe-ia a causa, junto aos poderes celestes. Trouxesse Fragoso a documentação positiva daquilo que verbalmente apontava e defender-lhe-ia a entrada no Paço da Eterna Luz.
Cirilo deu-se pressa em voltar à Terra e, aflito, extraiu as notas mais importantes, com referência aos legados que fizera às associações pias, presentes e futuras, nas derradeiras horas do corpo, e retornou à presença do amigo espiritual, diante de quem leu em voz firme e confiante:
– Para os velhinhos de diversos refúgios, deixei quatrocentos mil cruzeiros.
Para os doentes de várias agremiações, deixei oitocentos mil cruzeiros.
Para a instalação de um hospital de câncer, deixei seiscentos mil cruzeiros.
Para a fundação do Instituto São Damião, em favor dos leprosos, deixei trezentos mil cruzeiros.
Para a assistência à infância desvalida, deixei quinhentos mil cruzeiros.
Para meus empregados, deixei quatro casas e seis lotes de terras, no valor de um milhão e duzentos mil cruzeiros.
Em mãos do meu testamenteiro, deixei, desse modo, a importância total de três milhões e oitocentos mil cruzeiros, para a realização de boas obras.
Terminada a leitura, reparou que o anjo não se mostrava satisfeito.
Em razão disso, perguntou, ansioso:
– Não terei cumprido, assim, os preceitos de Jesus?
O interpelado, porém, aclarou, triste:
– Fragoso, é preciso pensar. Segundo o Evangelho, bem-aventurado é aquele que dá com alegria. Mas, realmente, você não deu. Suas anotações não deixam margem a qualquer dúvida. Você simplesmente deixou. Deixou, porque não podia trazer.
E porque Cirilo entrasse em aflitiva expectação, o anjo rematou:
– Infelizmente, seu lugar, por enquanto, ainda não é aqui.
De conformidade com os ensinamentos do Mestre Divino, onde situamos o tesouro de nossa vida aí guardaremos a própria alma. Seu testamento não exprime libertação. Quem dá, serve e passa. Quem deixa, larga provisoriamente. Você ainda não se exonerou das responsabilidades para com o dinheiro. Volte ao mundo e ampare aqueles a quem você confiou os bens que lhe foram emprestados pela Providência Divina e, ajudando-os a usá-los na caridade verdadeira, você conhecerá, com experiência própria, o desprendimento da posse. A morte obrigou-o a deixar. Agora, meu amigo, cabe-lhe exercitar a ciência de dar com alma e coração.
Foi assim que Cirilo Fragoso, embora acabrunhado, regressou à esfera dos homens, em espírito, a fim de aprender a beneficência com alicerces na renúncia.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Campanha da Paz
O equílibrio nasce da união fraternal e a união fratenal não aparece fora do respeito que devemos uns aos outros…
Ninguém colhe aquilo que não semeia… Conseguiremos a seara do serviço, conjugano os braços na ação que nos compete; conquistaremos a diligência, aplicando os olhos no dever a cumprir,
obteremos a vigilância, empregando criteriosamente os ouvidos; entretanto, para que a harmonia permaneça entre nós, é forçoso pensar e falar acerca do próximo, como desejamos que o próximo pense
e fale sobre nós mesmos…
E, ante o silêncio que pesava, profundo, o Mestre rematou:
- Irmãos, por amor aos fracos e aos aflitos, aos deserdados e
aos tristes da Terra, que esperam por nós a luz do Reino de Deus, façamos a campanha da paz, começando pela caridade da língua.
Ninguém colhe aquilo que não semeia… Conseguiremos a seara do serviço, conjugano os braços na ação que nos compete; conquistaremos a diligência, aplicando os olhos no dever a cumprir,
obteremos a vigilância, empregando criteriosamente os ouvidos; entretanto, para que a harmonia permaneça entre nós, é forçoso pensar e falar acerca do próximo, como desejamos que o próximo pense
e fale sobre nós mesmos…
E, ante o silêncio que pesava, profundo, o Mestre rematou:
- Irmãos, por amor aos fracos e aos aflitos, aos deserdados e
aos tristes da Terra, que esperam por nós a luz do Reino de Deus, façamos a campanha da paz, começando pela caridade da língua.
domingo, 7 de junho de 2009
OS MAIORES INIMIGOS
Certa feita, Simão Pedro perguntou a Jesus:
- Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.
Iam os dois de caminho entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.
O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.
Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:
- A experiência tudo revela no momento preciso.
- Oh! – exclamou Simão, impaciente – a experiência demora muitíssimo.
O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:
- Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.
Pedro calou-se, desencantado.
Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.
Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:
- Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.
Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.
Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.
O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:
- Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?
A resposta veio clara e breve:
- Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
- Terás observado a regra sublime, neste conflito? – continuou o Cristo, serenamente – recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.
Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.
O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.
Terminando, o Cristo indagou-lhe:
- Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?
- Até setenta vezes sete – replicou o apóstolo, humilde.
O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:
- A dureza é um carrasco da alma.
Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.
Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:
- Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.
Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:
- Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?
E, ante o companheiro desapontado, concluiu:
- A vaidade é um verdugo sutil.
Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das idéias novas.
À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesárea, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.
Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.
O esclarecimento veio depressa:
- Nunca.
O Cristo sorriu e observou:
- Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.
Em seguida, acrescentou:
- Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.
O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.
O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:
- Pedro, há precisamente uma hora procurava situar o domicilio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência... Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.
E, sorrindo, finalizou:
- Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.
- Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.
Iam os dois de caminho entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.
O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.
Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:
- A experiência tudo revela no momento preciso.
- Oh! – exclamou Simão, impaciente – a experiência demora muitíssimo.
O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:
- Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.
Pedro calou-se, desencantado.
Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.
Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:
- Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.
Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.
Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.
O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:
- Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?
A resposta veio clara e breve:
- Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
- Terás observado a regra sublime, neste conflito? – continuou o Cristo, serenamente – recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.
Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.
O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.
Terminando, o Cristo indagou-lhe:
- Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?
- Até setenta vezes sete – replicou o apóstolo, humilde.
O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:
- A dureza é um carrasco da alma.
Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.
Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:
- Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.
Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:
- Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?
E, ante o companheiro desapontado, concluiu:
- A vaidade é um verdugo sutil.
Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das idéias novas.
À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesárea, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.
Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.
O esclarecimento veio depressa:
- Nunca.
O Cristo sorriu e observou:
- Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.
Em seguida, acrescentou:
- Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.
O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.
O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:
- Pedro, há precisamente uma hora procurava situar o domicilio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência... Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.
E, sorrindo, finalizou:
- Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
MEMÓRIAS
"Deve ser horrível - diz você - o escândalo em torno de nossa memória. O homem arrastado ao pelourinho do escárnio público e ao pasto da maledicência, deve ser uma fogueira de angústia para o coração acordado, além da morte".
Você tem razão. A ave, em pleno céu, que se visse constrangida a voltar à casca do ovo, ou a árvore luxuriante que fosse obrigada a retornar para a cova de lodo, sofreriam menos que a alma desencarnada, sob a intimação de regresso às perigosas infantilidades da experiência humana.
Em tais circunstâncias, laços mais pesados nos religam o espírito, com mais intensidade, à gleba da carne, e a voz dos nossos julgadores, não raro, nos converte os ouvidos em receptores gigantescos para os quais convergem todos os apontamentos justos ou injustos de quantos nos apreciam a conduta e as decisões.
Você já pensou num homem, cujo corpo seja uma chaga viva, tangido violentamente por milhares de mãos descaridosas e rudes.
Esse é o símbolo pálido com que ousamos qualificar o suplício do infortunado que lega aos contemporâneos as recordações da própria viagem pela Terra, quando essas memórias se referem às situações que fazem o inferno dos seus semelhantes.
Fustigado por reclamações e acusações infindáveis, o morto vivo, com a infelicidade desse jaez, sofre golpes desapiedados, a torto e a direito, à maneira de um ferido na praça pública, visitado pelos sopapos e pelos impropérios de toda gente.
E você não calcula o que seja o martírio trazido pela impossibilidade de qualquer esclarecimento digno!
Falar ou escrever levianamente é expor-se a ouvir o pronunciamento da insensatez; e por mais que o delinqüente do verbo falado ou da letra reprovável se proclame arrependido e diferente, mais a crueldade o toma de assalto, esbofeteando-lhe o rosto amarrotado e disforme, sem que lhe seja facultada a mínima frase de defesa.
Efetivamente, enquanto nos demoramos na carne, é impossível imaginar o que seja isso.
É o desespero impotente daquele que, em vão, deseja fazer-se compreendido, é a sede inestancável de entendimento, é o pranto amargurado de quem observa o incêndio no próprio lar, sem uma gota d'água para extinguir a chama destruidora.
A figura de Ugolino, o famoso chefe de Pisa, encarcerado na torre da fome, a devorar as vísceras mortas dos próprios filhos, e que foi encontrado por Dante nos recôncavos do Estige, é, de alguma sorte, a única imagem para o confronto analógico, nos casos a que nos reportamos, porque realmente ilhados na solidão de nós mesmos, entre o pesadelo e o remorso de não termos sido o que devíamos ser, somos obrigados a tragar os detritos de nossas próprias obras.
Creia você que, em verdade, tudo isso é terrível e doloroso, de vez que o arrependimento irremediável nos transforma em duendes infortunados, em aflitiva peregrinação.
Não admita, porém, que isso seja apenas lamentável privilégio de alguns.
Não é necessário fixarmos reminiscências da Terra, em bronze ou papel, para que a vida nos revele aos outros tais quais somos.
Trazemos conosco o arquivo que nos é próprio. Sentimentos e idéias, palavras e ações são marcas em nossa alma.
Todos alcançaremos o plano em que nosso espírito é um livro aberto.
Intenções ocultas, interferência nos destinos alheios, assaltos disfarçados à felicidade do próximo, crimes consagrados pela admiração do mundo, misérias íntimas e desequilíbrios morais aparecem claramente, espantando a nós mesmos, que não suspeitávamos, de leve, da nossa própria degradação.
Você que conhece tão bem o assunto, cuide dos seus passos e vele pelo futuro de sua alma eterna, porque a existência, meu caro, seja onde for, é sempre um livro que o nosso coração anda escrevendo.
Você tem razão. A ave, em pleno céu, que se visse constrangida a voltar à casca do ovo, ou a árvore luxuriante que fosse obrigada a retornar para a cova de lodo, sofreriam menos que a alma desencarnada, sob a intimação de regresso às perigosas infantilidades da experiência humana.
Em tais circunstâncias, laços mais pesados nos religam o espírito, com mais intensidade, à gleba da carne, e a voz dos nossos julgadores, não raro, nos converte os ouvidos em receptores gigantescos para os quais convergem todos os apontamentos justos ou injustos de quantos nos apreciam a conduta e as decisões.
Você já pensou num homem, cujo corpo seja uma chaga viva, tangido violentamente por milhares de mãos descaridosas e rudes.
Esse é o símbolo pálido com que ousamos qualificar o suplício do infortunado que lega aos contemporâneos as recordações da própria viagem pela Terra, quando essas memórias se referem às situações que fazem o inferno dos seus semelhantes.
Fustigado por reclamações e acusações infindáveis, o morto vivo, com a infelicidade desse jaez, sofre golpes desapiedados, a torto e a direito, à maneira de um ferido na praça pública, visitado pelos sopapos e pelos impropérios de toda gente.
E você não calcula o que seja o martírio trazido pela impossibilidade de qualquer esclarecimento digno!
Falar ou escrever levianamente é expor-se a ouvir o pronunciamento da insensatez; e por mais que o delinqüente do verbo falado ou da letra reprovável se proclame arrependido e diferente, mais a crueldade o toma de assalto, esbofeteando-lhe o rosto amarrotado e disforme, sem que lhe seja facultada a mínima frase de defesa.
Efetivamente, enquanto nos demoramos na carne, é impossível imaginar o que seja isso.
É o desespero impotente daquele que, em vão, deseja fazer-se compreendido, é a sede inestancável de entendimento, é o pranto amargurado de quem observa o incêndio no próprio lar, sem uma gota d'água para extinguir a chama destruidora.
A figura de Ugolino, o famoso chefe de Pisa, encarcerado na torre da fome, a devorar as vísceras mortas dos próprios filhos, e que foi encontrado por Dante nos recôncavos do Estige, é, de alguma sorte, a única imagem para o confronto analógico, nos casos a que nos reportamos, porque realmente ilhados na solidão de nós mesmos, entre o pesadelo e o remorso de não termos sido o que devíamos ser, somos obrigados a tragar os detritos de nossas próprias obras.
Creia você que, em verdade, tudo isso é terrível e doloroso, de vez que o arrependimento irremediável nos transforma em duendes infortunados, em aflitiva peregrinação.
Não admita, porém, que isso seja apenas lamentável privilégio de alguns.
Não é necessário fixarmos reminiscências da Terra, em bronze ou papel, para que a vida nos revele aos outros tais quais somos.
Trazemos conosco o arquivo que nos é próprio. Sentimentos e idéias, palavras e ações são marcas em nossa alma.
Todos alcançaremos o plano em que nosso espírito é um livro aberto.
Intenções ocultas, interferência nos destinos alheios, assaltos disfarçados à felicidade do próximo, crimes consagrados pela admiração do mundo, misérias íntimas e desequilíbrios morais aparecem claramente, espantando a nós mesmos, que não suspeitávamos, de leve, da nossa própria degradação.
Você que conhece tão bem o assunto, cuide dos seus passos e vele pelo futuro de sua alma eterna, porque a existência, meu caro, seja onde for, é sempre um livro que o nosso coração anda escrevendo.
domingo, 12 de abril de 2009
BILHETE PATERNAL
Sim, meu filho, talvez por um capricho dos treze anos, você deseja um bilhete do amigo desencarnado, cujas páginas começou a ler.
Você - um menino! - solicita orientação espiritual.
Tenho escrito muitas cartas depois da morte, mas sinceramente não me recordo de haver dirigido até hoje, qualquer recado a gente verde do seu porte.
Perdoe se não lhe correspondo à expectativa.
Diz você que não espera uma história da carochinha, baseada em gênios protetores. E remata:
"quero, irmão X, que você me diga quais são as coisas mais importantes da vida, apontando aquilo de bom que devo querer e aquilo de mau que preciso evitar.
Lembro-me, assim, de oferecer a você uma lista curiosa que um velho amigo me ofereceu, aí no mundo, precisamente quando eu tinha a sua idade.
A relação apresentava o título "APRENDA, MEU FILHO..." e continha as seguintes informações:
1. O maior e melhor amigo: "DEUS."
2. Os melhores companheiros: "Os pais."
3. A melhor casa: "O lar."
4. A maior felicidade: "A boa consciência."
5. O mais belo dia: "Hoje."
6. O melhor tempo: "Agora."
7. A melhor regra para vencer: "A disciplina."
8. O melhor negócio: "O trabalho."
9. O melhor divertimento: "O estudo."
10.. A coleção mais rica: "A das boas ações."
11.. A estrada mais fácil para ser feliz: "O caminho reto."
12.. A maior alegria: "Dever cumprido."
13.. A maior força: "O bem."
14.. A melhor atitude: "A cortesia."
15.. O maior heroísmo: "A coragem de ser bom."
16.. A maior falta: "A mentira."
17.. A pior pobreza: "A preguiça."
18.. O pior fracasso: "O desânimo."
19.. O maior inimigo: "O mal."
20.. O melhor dos esportes: "A prática do bem."
Leia esta lista de informações, sempre que você puder, e veja por si como vai indo a sua orientação.
E se quer mais um aviso de amigo velho, cada noite acrescente esta pergunta a você mesmo, depois de sua oração para o repouso:
- Que fiz hoje de bom que somente um amigo de Jesus conseguiria fazer?
Você - um menino! - solicita orientação espiritual.
Tenho escrito muitas cartas depois da morte, mas sinceramente não me recordo de haver dirigido até hoje, qualquer recado a gente verde do seu porte.
Perdoe se não lhe correspondo à expectativa.
Diz você que não espera uma história da carochinha, baseada em gênios protetores. E remata:
"quero, irmão X, que você me diga quais são as coisas mais importantes da vida, apontando aquilo de bom que devo querer e aquilo de mau que preciso evitar.
Lembro-me, assim, de oferecer a você uma lista curiosa que um velho amigo me ofereceu, aí no mundo, precisamente quando eu tinha a sua idade.
A relação apresentava o título "APRENDA, MEU FILHO..." e continha as seguintes informações:
1. O maior e melhor amigo: "DEUS."
2. Os melhores companheiros: "Os pais."
3. A melhor casa: "O lar."
4. A maior felicidade: "A boa consciência."
5. O mais belo dia: "Hoje."
6. O melhor tempo: "Agora."
7. A melhor regra para vencer: "A disciplina."
8. O melhor negócio: "O trabalho."
9. O melhor divertimento: "O estudo."
10.. A coleção mais rica: "A das boas ações."
11.. A estrada mais fácil para ser feliz: "O caminho reto."
12.. A maior alegria: "Dever cumprido."
13.. A maior força: "O bem."
14.. A melhor atitude: "A cortesia."
15.. O maior heroísmo: "A coragem de ser bom."
16.. A maior falta: "A mentira."
17.. A pior pobreza: "A preguiça."
18.. O pior fracasso: "O desânimo."
19.. O maior inimigo: "O mal."
20.. O melhor dos esportes: "A prática do bem."
Leia esta lista de informações, sempre que você puder, e veja por si como vai indo a sua orientação.
E se quer mais um aviso de amigo velho, cada noite acrescente esta pergunta a você mesmo, depois de sua oração para o repouso:
- Que fiz hoje de bom que somente um amigo de Jesus conseguiria fazer?
domingo, 15 de fevereiro de 2009
AS TRÊS ORAÇÕES
Instado pela assembléia de amigos a falar sobre a resposta do Criador às preces das criaturas, respondeu o velho Simão Abileno, instrutor cristão, considerado no Plano Espiritual por mestre do apólogo e da síntese:
- Repetirei para vocês, a nosso modo, antiga lenda que corre mundo nos contos populares de numerosos países... Em grande bosque da Ásia Menor, três árvores ainda jovens pediram a Deus lhes concedesse destinos gloriosos e diferentes. A primeira explicou que aspirava a ser empregada no trono do mais alto soberano da Terra; após ouvi-la, a segunda declarou que desejava ser utilizada na construção do carro que transportasse os tesouros desse rei poderoso, e a terceira, por último, disse então que almejava transformar-se numa torre, nos domínios desse potentado, para indicar o caminho do Céu. Depois das preces formuladas, um Mensageiro Angélico desceu à mata e avisou que o Todo Misericordioso lhes recebera as rogativas e lhes atenderia as petições. Decorrido muito tempo, lenhadores invadiram o horto selvagem e as árvores, com grande pesar de todas as plantas circunvizinhas, foram reduzidas a troncos, despidos por mãos cruéis. Arrastados para fora do ambiente familiar, ainda mesmo com os braços decepados, elas confiaram nas promessas do Supremo Senhor e se deixaram conduzir, com paciência e humildade. Qual não lhes foi, porém, a aflitiva surpresa!... Depois de muitas viagens, a primeira caiu sob o poder de um criador de animais que, de imediato, mandou convertê-la num grande cocho destinado à alimentação de carneiros; a segunda foi adquirida por um velho praiano que construía barcos por encomenda; e a terceira foi comprada e recolhida para servir, em momento oportuno, numa cela de malfeitores. As árvores amigas, conquanto separadas e sofredoras, não deixaram de acreditar na mensagem do Eterno e obedeceram sem queixa às ordens inesperadas que as leis da vida lhes impunham... No bosque contudo, as outras plantas tinham perdido a fé no valor da oração, quando, transcorridos muitos anos, vieram a saber que as três árvores haviam obtido as concessões gloriosas solicitadas. A primeira, forrada de panos singelos, recebera Jesus das mãos de Maria de Nazaré, servindo de berço ao Dirigente Mais Alto do Mundo; a segunda, trabalhando com pescadores, na forma de barca valente e pobre, fora o veículo de que Jesus se utilizou para transmitir sobre as águas muitos dos seus mais belos ensinamentos; e a terceira, convertida apressadamente numa cruz, em Jerusalém, seguira com Ele, o Senhor, para o monte e, ali, ereta e valorosa, guardara-Lhe o coração torturado mas repleto de amor no extremo sacrifício, indicando o verdadeiro caminho do Reino Celestial...
Simão silenciou, comovido.
E, depois de longa pausa, terminou a entremostrar os olhos marejados de pranto:
- Em verdade, meus amigos, todos nós podemos endereçar a Deus, em qualquer parte e em qualquer tempo, as mais variadas preces. No entanto, precisamos cultivar paciência e humildade, para esperar e compreender as respostas de Deus.
- Repetirei para vocês, a nosso modo, antiga lenda que corre mundo nos contos populares de numerosos países... Em grande bosque da Ásia Menor, três árvores ainda jovens pediram a Deus lhes concedesse destinos gloriosos e diferentes. A primeira explicou que aspirava a ser empregada no trono do mais alto soberano da Terra; após ouvi-la, a segunda declarou que desejava ser utilizada na construção do carro que transportasse os tesouros desse rei poderoso, e a terceira, por último, disse então que almejava transformar-se numa torre, nos domínios desse potentado, para indicar o caminho do Céu. Depois das preces formuladas, um Mensageiro Angélico desceu à mata e avisou que o Todo Misericordioso lhes recebera as rogativas e lhes atenderia as petições. Decorrido muito tempo, lenhadores invadiram o horto selvagem e as árvores, com grande pesar de todas as plantas circunvizinhas, foram reduzidas a troncos, despidos por mãos cruéis. Arrastados para fora do ambiente familiar, ainda mesmo com os braços decepados, elas confiaram nas promessas do Supremo Senhor e se deixaram conduzir, com paciência e humildade. Qual não lhes foi, porém, a aflitiva surpresa!... Depois de muitas viagens, a primeira caiu sob o poder de um criador de animais que, de imediato, mandou convertê-la num grande cocho destinado à alimentação de carneiros; a segunda foi adquirida por um velho praiano que construía barcos por encomenda; e a terceira foi comprada e recolhida para servir, em momento oportuno, numa cela de malfeitores. As árvores amigas, conquanto separadas e sofredoras, não deixaram de acreditar na mensagem do Eterno e obedeceram sem queixa às ordens inesperadas que as leis da vida lhes impunham... No bosque contudo, as outras plantas tinham perdido a fé no valor da oração, quando, transcorridos muitos anos, vieram a saber que as três árvores haviam obtido as concessões gloriosas solicitadas. A primeira, forrada de panos singelos, recebera Jesus das mãos de Maria de Nazaré, servindo de berço ao Dirigente Mais Alto do Mundo; a segunda, trabalhando com pescadores, na forma de barca valente e pobre, fora o veículo de que Jesus se utilizou para transmitir sobre as águas muitos dos seus mais belos ensinamentos; e a terceira, convertida apressadamente numa cruz, em Jerusalém, seguira com Ele, o Senhor, para o monte e, ali, ereta e valorosa, guardara-Lhe o coração torturado mas repleto de amor no extremo sacrifício, indicando o verdadeiro caminho do Reino Celestial...
Simão silenciou, comovido.
E, depois de longa pausa, terminou a entremostrar os olhos marejados de pranto:
- Em verdade, meus amigos, todos nós podemos endereçar a Deus, em qualquer parte e em qualquer tempo, as mais variadas preces. No entanto, precisamos cultivar paciência e humildade, para esperar e compreender as respostas de Deus.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
ENGANO
Desde que Dona Marina acolhera um pobre rapaz doente, em seu próprio carro, por duas vezes consecutivas, conduzindo-o a tratamento no hospital, que os mexericos principiaram...
Agitou-se o bairro.
“Dona Marina extraviara-se do lar, Dona Marina se inimizara com o marido e aceitara um companheiro diferente”, falava-se aqui e além, a comentários sussurrados. Segredo de boca em boca.
A imaginação doentia completava os esboços que a malícia traçava. Claro que o segundo homem devia ser um moço endinheirado e bonitão... Dona Marina, de modo algum, se comprometeria com um joão-ninguém.
E, de bisbilhotice em bisbilhotice, quando o assunto chegou ao marido, o pobre do Placidino, devotado contador sempre encerrado no escritório, o caso parecia uma corrente de enxurrada, desembocando num recôncavo de vale tranqüilo. Não ficou terra de bondade, nem planta de afeto que não tornassem lama grossa.
Placidino para logo se envenenou.
“Ah!... – resmungava, interpretando simples passeios da mulher por encontros indesejáveis – bem que a vejo mudada!... Vestidos e mais vestidos, gargalhadas para dar e vender e automóvel com alta quilometragem...” Ao passo que ele, marido e pai exemplar, se esfalfava por cima de números, pagando o reconforto da casa, a companheira se espoliava em desequilíbrios e infidelidade – pensava em desconsolo.
Por tudo isso, regressava ao lar, noite a noite, derramando reprovação e azedume. Reclamava, altercava. Nutria acusações, sem poder exprimi-ias de viva voz. Queria provas, quanto à deslealdade da mulher, e, enquanto as provas não vinham, passou a ocultar um revólver carregado de balas no próprio bolso. E raciocinava: se visse a esposa com outro, matá-la-ia sem vacilar... E depois?... Depois, que faria da própria existência?!... Valeria a pena sobreviver? Não. Encontraria meios de abater o agressor e aniquilar-se. Os dois filhinhos do casal teriam a proteção dos avós. Ele, Placidino, não aspirava a permanecer no mundo, além da tragédia, se a tragédia se consumasse.
E, ruminando idéias de homicídio e suicídio, no caldo do ciúme, tampado no peito em ponto de explosão, Placidino voltou ao lar, certa noite, em horário imprevisto, com a empregada ausente e os filhos em férias escolares num sítio distante... Dona Marina recebeu-o alegre, mas naturalmente intrigada, indagando que acontecia para que o esposo retornasse mais cedo. Ria-se. Parecia querer detê-la na sala-de-estar para entendimento mais longo. Não sabia que a expectação angustiada do esposo exprimisse desconfiança e pediu-lhe as razões da tristeza que lhe categorizava o abatimento. Placidino não respondeu. Desvencilhou-se-lhe das carícias, repelindo-lhe o abraço e avançou para o quarto de dormir, seguido por ela, e, estarrecido, viu que um homem se ocultava na peça íntima, sob cortina espessa. Cego de ciúme e desesperação, não parou a mente em descontrole para pensar. Sacou da arma, alvejou o desconhecido, disparou contra a esposa e, em seguida, varou o próprio crânio, desmontando-se no tapete.
Três mortos em alguns minutos.
E, somente mais tarde, Placidino, desencarnado, veio a saber, na Vida Maior, que o homem do aposento, cuidadosamente enrolado no reposteiro, era um irmão anônimo e infeliz que ali se escondera unicamente para roubar,
Agitou-se o bairro.
“Dona Marina extraviara-se do lar, Dona Marina se inimizara com o marido e aceitara um companheiro diferente”, falava-se aqui e além, a comentários sussurrados. Segredo de boca em boca.
A imaginação doentia completava os esboços que a malícia traçava. Claro que o segundo homem devia ser um moço endinheirado e bonitão... Dona Marina, de modo algum, se comprometeria com um joão-ninguém.
E, de bisbilhotice em bisbilhotice, quando o assunto chegou ao marido, o pobre do Placidino, devotado contador sempre encerrado no escritório, o caso parecia uma corrente de enxurrada, desembocando num recôncavo de vale tranqüilo. Não ficou terra de bondade, nem planta de afeto que não tornassem lama grossa.
Placidino para logo se envenenou.
“Ah!... – resmungava, interpretando simples passeios da mulher por encontros indesejáveis – bem que a vejo mudada!... Vestidos e mais vestidos, gargalhadas para dar e vender e automóvel com alta quilometragem...” Ao passo que ele, marido e pai exemplar, se esfalfava por cima de números, pagando o reconforto da casa, a companheira se espoliava em desequilíbrios e infidelidade – pensava em desconsolo.
Por tudo isso, regressava ao lar, noite a noite, derramando reprovação e azedume. Reclamava, altercava. Nutria acusações, sem poder exprimi-ias de viva voz. Queria provas, quanto à deslealdade da mulher, e, enquanto as provas não vinham, passou a ocultar um revólver carregado de balas no próprio bolso. E raciocinava: se visse a esposa com outro, matá-la-ia sem vacilar... E depois?... Depois, que faria da própria existência?!... Valeria a pena sobreviver? Não. Encontraria meios de abater o agressor e aniquilar-se. Os dois filhinhos do casal teriam a proteção dos avós. Ele, Placidino, não aspirava a permanecer no mundo, além da tragédia, se a tragédia se consumasse.
E, ruminando idéias de homicídio e suicídio, no caldo do ciúme, tampado no peito em ponto de explosão, Placidino voltou ao lar, certa noite, em horário imprevisto, com a empregada ausente e os filhos em férias escolares num sítio distante... Dona Marina recebeu-o alegre, mas naturalmente intrigada, indagando que acontecia para que o esposo retornasse mais cedo. Ria-se. Parecia querer detê-la na sala-de-estar para entendimento mais longo. Não sabia que a expectação angustiada do esposo exprimisse desconfiança e pediu-lhe as razões da tristeza que lhe categorizava o abatimento. Placidino não respondeu. Desvencilhou-se-lhe das carícias, repelindo-lhe o abraço e avançou para o quarto de dormir, seguido por ela, e, estarrecido, viu que um homem se ocultava na peça íntima, sob cortina espessa. Cego de ciúme e desesperação, não parou a mente em descontrole para pensar. Sacou da arma, alvejou o desconhecido, disparou contra a esposa e, em seguida, varou o próprio crânio, desmontando-se no tapete.
Três mortos em alguns minutos.
E, somente mais tarde, Placidino, desencarnado, veio a saber, na Vida Maior, que o homem do aposento, cuidadosamente enrolado no reposteiro, era um irmão anônimo e infeliz que ali se escondera unicamente para roubar,
sábado, 20 de dezembro de 2008
Crônica do Natal
Desde a ascensão de Herodes, o Grande, que se fizera rei
com o apoio dos romanos, não se falava na Palestina senão
no Salvador que viria, enfim...
Mais forte que Moisés, mais sábio que Salomão,
mais suave que David, chegaria em suntuoso carro de triunfo
para estender sobre a Terra as leis do Povo Escolhido.
Por isso, judeus prestigiosos, descendentes das doze tribos,
preparavam-lhe oferendas em várias nações do mundo.
Velhas profecias eram lidas e comentadas, na Fenícia e na Síria,
na Etiópia e no Egito.
Dos Confins do Mar Morto às terras de Abilena, tumultuavam
notícias da suspirada reforma...
E mãos hábeis preparavam com devotamento e carinho
o advento do Redentor.
Castiçais de ouro e prata eram burilados em Cesaréia, tapetes
primorosos eram tecidos em Damasco, vasos finos eram
importados de Roma, perfumes raros eram trazidos de
remotos rincões da Pérsia...
Negociantes habituados à cobiça cediam verdadeiras
fortunas ao Templo de Jerusalém, após ouvirem as predições
dos sacerdotes, e filhos tostados do deserto vinham de longe
trazer ao santuário da raça a contribuição espontânea com
que desejavam formar nas homenagens ao Celeste Renovador.
Tudo era febre de expectação e ansiedade.
Palácios eram reconstruídos, pomares e vinhas surgiam
cuidadosamente podados, touros e carneiros, cabras
e pombos eram tratados com esmero para
o regozijo esperado.
Entretanto, o Emissário Divino desce ao mundo na
sombra espessa da noite.
Das torres e dos montes, hebreus inteligentes recolhem
a grata notícia...
Uma estrela rutila no firmamento.
O enviado, porém, elege pequena manjedoura
para seu berço de luz.
E porque as vozes do Céu se fazem ouvir, cristalinas e jubilosas,
cantam eles também...
- "Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens!..."
Ali, na estrebaria singela, estão Ele e o povo...
E o povo com Ele inicia uma nova era...
É por isso que o Natal é a festa da bondade vitoriosa.
Lembrando o rei Divino que desceu da Glória à Manjedoura,
reparte com teu irmão tua alegria e tua esperança,
teu pão e tua veste.
Recorda que Ele, em sua divina magnificência, elegeu por
primeiros amigos e benfeitores aqueles que do mundo nada
possuíam para dar, além da pobreza ignorada e singela.
Não importa sejas, por enquanto, terno e generoso para
com o próximo somente um dia.
Pouco a pouco, aprenderás que o espírito do Natal deve reinar
conosco em todas as horas de nossa vida.
Então, serás o irmão abnegado e fiel de todos, porque, em cada
manhã, ouvirás uma voz do Céu a sussurrar-te, sutil:
- Jesus nasceu! Jesus nasceu!...
E o Mestre do Amor terá realmente nascido em teu coração
para viver contigo eternamente.
com o apoio dos romanos, não se falava na Palestina senão
no Salvador que viria, enfim...
Mais forte que Moisés, mais sábio que Salomão,
mais suave que David, chegaria em suntuoso carro de triunfo
para estender sobre a Terra as leis do Povo Escolhido.
Por isso, judeus prestigiosos, descendentes das doze tribos,
preparavam-lhe oferendas em várias nações do mundo.
Velhas profecias eram lidas e comentadas, na Fenícia e na Síria,
na Etiópia e no Egito.
Dos Confins do Mar Morto às terras de Abilena, tumultuavam
notícias da suspirada reforma...
E mãos hábeis preparavam com devotamento e carinho
o advento do Redentor.
Castiçais de ouro e prata eram burilados em Cesaréia, tapetes
primorosos eram tecidos em Damasco, vasos finos eram
importados de Roma, perfumes raros eram trazidos de
remotos rincões da Pérsia...
Negociantes habituados à cobiça cediam verdadeiras
fortunas ao Templo de Jerusalém, após ouvirem as predições
dos sacerdotes, e filhos tostados do deserto vinham de longe
trazer ao santuário da raça a contribuição espontânea com
que desejavam formar nas homenagens ao Celeste Renovador.
Tudo era febre de expectação e ansiedade.
Palácios eram reconstruídos, pomares e vinhas surgiam
cuidadosamente podados, touros e carneiros, cabras
e pombos eram tratados com esmero para
o regozijo esperado.
Entretanto, o Emissário Divino desce ao mundo na
sombra espessa da noite.
Das torres e dos montes, hebreus inteligentes recolhem
a grata notícia...
Uma estrela rutila no firmamento.
O enviado, porém, elege pequena manjedoura
para seu berço de luz.
E porque as vozes do Céu se fazem ouvir, cristalinas e jubilosas,
cantam eles também...
- "Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens!..."
Ali, na estrebaria singela, estão Ele e o povo...
E o povo com Ele inicia uma nova era...
É por isso que o Natal é a festa da bondade vitoriosa.
Lembrando o rei Divino que desceu da Glória à Manjedoura,
reparte com teu irmão tua alegria e tua esperança,
teu pão e tua veste.
Recorda que Ele, em sua divina magnificência, elegeu por
primeiros amigos e benfeitores aqueles que do mundo nada
possuíam para dar, além da pobreza ignorada e singela.
Não importa sejas, por enquanto, terno e generoso para
com o próximo somente um dia.
Pouco a pouco, aprenderás que o espírito do Natal deve reinar
conosco em todas as horas de nossa vida.
Então, serás o irmão abnegado e fiel de todos, porque, em cada
manhã, ouvirás uma voz do Céu a sussurrar-te, sutil:
- Jesus nasceu! Jesus nasceu!...
E o Mestre do Amor terá realmente nascido em teu coração
para viver contigo eternamente.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
UMA BOA PALAVRA
No teu relacionamento diário com as pessoas, não te esqueças de endereçar-lhes sempre uma boa palavra.
A palavra de esperança é uma luz que se acende no caminho dos companheiros que se revelam vacilantes na luta.
A palavra de coragem é um apoio para os que necessitam seguir adiante no desempenho das próprias obrigações.
A palavra de compreensão, não raro, é mais eficaz que o medicamento prescrito pela medicina convencional aos que se queixam de amargura e desalento.
A palavra de incentivo aos que se dedicam às obras, pode ser comparada a preciosa alavanca que guarda consigo o poder de remover as pedras de tropeço.
Não olvides, assim, os prodígios de amor que podes realizar através de uma boa palavra e promova, desde agora, rigorosa triagem nos assuntos ventilados por teu verbo.
Falando, construirás a felicidade ou, ainda falando, arrasarás com os ideais de muita gente.
Fala como se trouxesses Jesus no entendimento e no coração e a tua palavra, em todas as ocasiões, brilhará em teus lábiosà feição de uma estrela engastada no céu de tua boca.
A palavra de esperança é uma luz que se acende no caminho dos companheiros que se revelam vacilantes na luta.
A palavra de coragem é um apoio para os que necessitam seguir adiante no desempenho das próprias obrigações.
A palavra de compreensão, não raro, é mais eficaz que o medicamento prescrito pela medicina convencional aos que se queixam de amargura e desalento.
A palavra de incentivo aos que se dedicam às obras, pode ser comparada a preciosa alavanca que guarda consigo o poder de remover as pedras de tropeço.
Não olvides, assim, os prodígios de amor que podes realizar através de uma boa palavra e promova, desde agora, rigorosa triagem nos assuntos ventilados por teu verbo.
Falando, construirás a felicidade ou, ainda falando, arrasarás com os ideais de muita gente.
Fala como se trouxesses Jesus no entendimento e no coração e a tua palavra, em todas as ocasiões, brilhará em teus lábiosà feição de uma estrela engastada no céu de tua boca.
UMA BOA PALAVRA
No teu relacionamento diário com as pessoas, não te esqueças de endereçar-lhes sempre uma boa palavra.
A palavra de esperança é uma luz que se acende no caminho dos companheiros que se revelam vacilantes na luta.
A palavra de coragem é um apoio para os que necessitam seguir adiante no desempenho das próprias obrigações.
A palavra de compreensão, não raro, é mais eficaz que o medicamento prescrito pela medicina convencional aos que se queixam de amargura e desalento.
A palavra de incentivo aos que se dedicam às obras, pode ser comparada a preciosa alavanca que guarda consigo o poder de remover as pedras de tropeço.
Não olvides, assim, os prodígios de amor que podes realizar através de uma boa palavra e promova, desde agora, rigorosa triagem nos assuntos ventilados por teu verbo.
Falando, construirás a felicidade ou, ainda falando, arrasarás com os ideais de muita gente.
Fala como se trouxesses Jesus no entendimento e no coração e a tua palavra, em todas as ocasiões, brilhará em teus lábiosà feição de uma estrela engastada no céu de tua boca.
A palavra de esperança é uma luz que se acende no caminho dos companheiros que se revelam vacilantes na luta.
A palavra de coragem é um apoio para os que necessitam seguir adiante no desempenho das próprias obrigações.
A palavra de compreensão, não raro, é mais eficaz que o medicamento prescrito pela medicina convencional aos que se queixam de amargura e desalento.
A palavra de incentivo aos que se dedicam às obras, pode ser comparada a preciosa alavanca que guarda consigo o poder de remover as pedras de tropeço.
Não olvides, assim, os prodígios de amor que podes realizar através de uma boa palavra e promova, desde agora, rigorosa triagem nos assuntos ventilados por teu verbo.
Falando, construirás a felicidade ou, ainda falando, arrasarás com os ideais de muita gente.
Fala como se trouxesses Jesus no entendimento e no coração e a tua palavra, em todas as ocasiões, brilhará em teus lábiosà feição de uma estrela engastada no céu de tua boca.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
JESUS E O PERCURSOR
Após a famosa apresentação de Jesus aos doutores do templo de Jerusalém, Maria recebeu a visita de Isabel e de seu filho, em sua casinha pobre de Nazaré.
Depois das saudações habituais, no desdobramento dos assuntos familiares, as duas primas entraram a falar de ambas as crianças, cujo nascimento fora antecipado por acontecimentos singulares e cercado de estranhas circunstâncias.. Enquanto o patriarca José atendia às últimas necessidades diárias de sua oficina humilde, entretinham-se as duas em curiosa palestra, trocando carinhosamente as mais ternas confidências maternais.
– O que me espanta – dizia Isabel com caricioso sorriso – é o temperamento de João, dado às mais fundas meditações, apesar da sua pouca idade. Não raro, procuro-o inutilmente em casa, para encontrá-lo, quase sempre, entre as figueiras bravas, ou caminhando ao longo das estradas adustas, como se a pequena fronte estivesse dominada por graves pensamentos.
– Essas crianças, a meu ver – respondeu-lhe Maria, intensificando o brilho suave de seus olhos – trazem para a humanidade a luz divina de um caminho novo. Meu filho também é assim, envolvendo-me o coração numa atmosfera de incessantes cuidados. Por vezes, vou encontrá-la a sós, junto das águas, e, de outras, em conversação profunda com os viajantes que demandam a Samaria ou as aldeias mais distantes, nas adjacências do lago. Quase sempre, surpreendo-lhe a palavra caridosa que dirige às lavadeiras, aos transeuntes, aos mendigos sofredores... Fala de sua comunhão com Deus com uma eloqüência que nunca encontrei nas observações dos nossos doutores e, constantemente, ando a cismar, em relação ao seu destino.
-Apesar de todos os valores da crença – murmurou Isabel, convicta – nós, as mães, temos sempre o espírito abalado por injustificáveis receios.
Como se e deixasse empolgar por amorosos temores, Maria continuou:
– Ainda há alguns dias, estivemos em Jerusalém, nas comemorações costumeiras, e a facilidade de argumentação com que Jesus elucidava os problemas, que lhe eram apresentados pelos orientadores do templo, nos deixaram a todos receosos e perplexos, Sua ciência não pode ser deste mundo: vem de Deus, que certamente se manifesta por seus lábios amigos da pureza. Notando-lhe a respostas, Eleazar chamou o José, em particular, e o advertiu de que o menino parece haver nascido para a perdição de muitos poderosos em Israel.
Com a prima a lhe escutar atentamente a palavra, Maria prosseguiu, de olhos úmidos, após ligeira pausa :
- Ciente desse aviso, procurei Eleazar, a fim de interceder por Jesus, junto de suas valiosas relações com as autoridades do templo. pensei na sua infância desprotegida e receio pelo seu futuro. Eleazar prometeu interessar-se pela sua sorte; todavia, de regresso a Nazaré, experimentei singular multiplicação dos meus temores. Conversei com José, mais detidamente, acerca do pequeno, preocupada com o seu preparo conveniente para a vida!... entretanto, no dia que se seguiu às nossas íntimas confabulações, Jesus se aproximou de mim,pela manhã, e me interpelou : – “Mãe, que queres tu de mim‘? Acaso não tenho testemunhado minha comunhão com o Pai que está no Céu ?!” Altamente surpreendida com a sua pergunta, respondi-lhe hesitante : – “Tenho cuidado por ti, meu filho! Reconheço que necessitas de um preparo melhor para a vida...” Mas, como se estivesse em pleno conhecimento do que se passava em meu íntimo, o ponderou : “Mãe, toda preparação útil e generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós toda a exemplificação que seja, boa e eu escolherei, desse modo, a escola melhor”. No mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e lhe pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então, como se nos quisesse ensinar que a melhor escola para Deus e a do lar e a, do esforço próprio – concluiu a palavra materna, com singeleza – ele aperfeiçoa as madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó, enchendo a casa de ânimo, com a sua doce alegria!
Isabel lhe escutava atenta à narrativa, e, depois de outras pequenas considerações materiais, ambas observaram que as primeiras sombras da noite desciam na paisagem, acinzentando o céu sem nuvens.
A carpintaria já estava fechada e Jose buscava a serenidade do interior doméstico para o repouso.
As duas mães se entreolharam inquietas e perguntavam a si próprias para onde teriam ido às duas crianças.
***
Nazaré, com a sua paisagem, das mais belas de toda a Galiléia, é talvez ò mais formoso recanto da Palestina. suas ruas humildes e pedregosas, suas casas pequeninas, suas lojas singulares se agrupam numa ampla concavidade em cima das montanhas, ao norte do Esdrelon. Seus horizontes são estreitos e sem interesse ; contudo, os que subam um pouco além, até onde se localizam as casinholas mais elevadas, encontrarão para o olhar assombrado as mais formosas perspectivas. O céu parece alongar-se, cobrindo o conjunto maravilhoso, numa dilatarão infinita.
Maria e Isabel avistaram seus filhos, lado a, lado, sobre uma eminência 'banhada pelos derradeiros raios vespertinos. De longe, afigurou-se-lhes que os cabelos de Jesus esvoaçavam ao sopro caricioso das brisas do alto. Seu pequeno indicador mostrava a João as paisagens que se multiplicavam a distância, com o um grande general que desse a conhecer as minudências dos seus planos a um soldado de confiança. Ante seus olhos surgiam as montanhas da Saneia, o cume de Magedo, as eminências de Gelboé, a figura esbelta do Tabor, onde, mais tarde, ficaria inesquecível o instante da Transfigurarão, o vale do rio sagrado do Cristianismo, os cumes de Rafed, o golfo de Khalfa, o elevado cenário do Pereu, num soberbo conjunto de montes e vales, ao lado das águas cristalinas.
Quem poderia saber qual a conversação solitária que se travara entre ambos? Distanciados no tempo, devemos presumir que fosse, na Terra, a primeira combinação entre o amor e a verdade, para a conquista do mundo. sabemos, porem, que, na manhã imediata, em partindo o precursor na carinhosa companhia de sua, mãe, perguntou Isabel a Jesus, com gracioso interesse : – “não queres vir conosco?” – ao que o pequeno carpinteiro de Nazaré respondeu, profeticamente, com inflexão de profunda bondade'. – “João partirá primeiro”.
Transcorridos alguns anos, vamos encontrar o Batista na sua gloriosa tarefa de preparação do caminho à verdade, precedendo o trabalho divino do amor, que o mundo conheceria em Jesus - Cristo.
João, de fato, partiu primeiro, a fim de executar as operações iniciais para a grandiosa conquista. Vestido de peles e entanto de mel selvagem, esclarecendo com energia e deixando-se degolar em testemunho à, Verdade, ele precedeu. a lição de. misericórdia e da bondade. O Medre do¿ mestres quis colocar a figura franca e áspera do seu. profeta no limiar de seus gloriosas ensinos e, por isso, encontramos em João Batista um dos mais belos de todos os símbolos imortais do Cristianismo. Salomé representa a futilidade cio mundo, Herodes e sua mulher o convencionalismo político e o interesse particular. João era a verdade, e a verdade, na sua, tarefa de aperfeiçoamento, dilacera e magoa, deixando-se levar aos sacrifícios extremos.
Como a dor que precede As poderosas manifestações da luz no íntimo dos corações, ela recebe o bloco de mármore bruto e lhe trabalha as asperezas para que a obra do amor surja, em sua pureza divina. João Batista foi a voz clamante do deserto. Operário da primeira hora, é ele o símbolo rude da verdade que arranca as mais fortes raízes do mundo, para que o reino de Deus prevaleça nos corações. Exprimindo a austera disciplina que antecede a espontaneidade do amor, a luta para que se desfaçam as sombras do caminho, João é o primeiro sinal o cristão ativo, em guerra com as próprias imperfeições do seu mundo interior, a fim de estabelecer em si mesmo o santuário de sua realização com o Cristo. Foi por essa razão que dele disse Jesus : – “Dos nascidos de mulher, João Batista é o maior de todos.”
Depois das saudações habituais, no desdobramento dos assuntos familiares, as duas primas entraram a falar de ambas as crianças, cujo nascimento fora antecipado por acontecimentos singulares e cercado de estranhas circunstâncias.. Enquanto o patriarca José atendia às últimas necessidades diárias de sua oficina humilde, entretinham-se as duas em curiosa palestra, trocando carinhosamente as mais ternas confidências maternais.
– O que me espanta – dizia Isabel com caricioso sorriso – é o temperamento de João, dado às mais fundas meditações, apesar da sua pouca idade. Não raro, procuro-o inutilmente em casa, para encontrá-lo, quase sempre, entre as figueiras bravas, ou caminhando ao longo das estradas adustas, como se a pequena fronte estivesse dominada por graves pensamentos.
– Essas crianças, a meu ver – respondeu-lhe Maria, intensificando o brilho suave de seus olhos – trazem para a humanidade a luz divina de um caminho novo. Meu filho também é assim, envolvendo-me o coração numa atmosfera de incessantes cuidados. Por vezes, vou encontrá-la a sós, junto das águas, e, de outras, em conversação profunda com os viajantes que demandam a Samaria ou as aldeias mais distantes, nas adjacências do lago. Quase sempre, surpreendo-lhe a palavra caridosa que dirige às lavadeiras, aos transeuntes, aos mendigos sofredores... Fala de sua comunhão com Deus com uma eloqüência que nunca encontrei nas observações dos nossos doutores e, constantemente, ando a cismar, em relação ao seu destino.
-Apesar de todos os valores da crença – murmurou Isabel, convicta – nós, as mães, temos sempre o espírito abalado por injustificáveis receios.
Como se e deixasse empolgar por amorosos temores, Maria continuou:
– Ainda há alguns dias, estivemos em Jerusalém, nas comemorações costumeiras, e a facilidade de argumentação com que Jesus elucidava os problemas, que lhe eram apresentados pelos orientadores do templo, nos deixaram a todos receosos e perplexos, Sua ciência não pode ser deste mundo: vem de Deus, que certamente se manifesta por seus lábios amigos da pureza. Notando-lhe a respostas, Eleazar chamou o José, em particular, e o advertiu de que o menino parece haver nascido para a perdição de muitos poderosos em Israel.
Com a prima a lhe escutar atentamente a palavra, Maria prosseguiu, de olhos úmidos, após ligeira pausa :
- Ciente desse aviso, procurei Eleazar, a fim de interceder por Jesus, junto de suas valiosas relações com as autoridades do templo. pensei na sua infância desprotegida e receio pelo seu futuro. Eleazar prometeu interessar-se pela sua sorte; todavia, de regresso a Nazaré, experimentei singular multiplicação dos meus temores. Conversei com José, mais detidamente, acerca do pequeno, preocupada com o seu preparo conveniente para a vida!... entretanto, no dia que se seguiu às nossas íntimas confabulações, Jesus se aproximou de mim,pela manhã, e me interpelou : – “Mãe, que queres tu de mim‘? Acaso não tenho testemunhado minha comunhão com o Pai que está no Céu ?!” Altamente surpreendida com a sua pergunta, respondi-lhe hesitante : – “Tenho cuidado por ti, meu filho! Reconheço que necessitas de um preparo melhor para a vida...” Mas, como se estivesse em pleno conhecimento do que se passava em meu íntimo, o ponderou : “Mãe, toda preparação útil e generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós toda a exemplificação que seja, boa e eu escolherei, desse modo, a escola melhor”. No mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e lhe pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então, como se nos quisesse ensinar que a melhor escola para Deus e a do lar e a, do esforço próprio – concluiu a palavra materna, com singeleza – ele aperfeiçoa as madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó, enchendo a casa de ânimo, com a sua doce alegria!
Isabel lhe escutava atenta à narrativa, e, depois de outras pequenas considerações materiais, ambas observaram que as primeiras sombras da noite desciam na paisagem, acinzentando o céu sem nuvens.
A carpintaria já estava fechada e Jose buscava a serenidade do interior doméstico para o repouso.
As duas mães se entreolharam inquietas e perguntavam a si próprias para onde teriam ido às duas crianças.
***
Nazaré, com a sua paisagem, das mais belas de toda a Galiléia, é talvez ò mais formoso recanto da Palestina. suas ruas humildes e pedregosas, suas casas pequeninas, suas lojas singulares se agrupam numa ampla concavidade em cima das montanhas, ao norte do Esdrelon. Seus horizontes são estreitos e sem interesse ; contudo, os que subam um pouco além, até onde se localizam as casinholas mais elevadas, encontrarão para o olhar assombrado as mais formosas perspectivas. O céu parece alongar-se, cobrindo o conjunto maravilhoso, numa dilatarão infinita.
Maria e Isabel avistaram seus filhos, lado a, lado, sobre uma eminência 'banhada pelos derradeiros raios vespertinos. De longe, afigurou-se-lhes que os cabelos de Jesus esvoaçavam ao sopro caricioso das brisas do alto. Seu pequeno indicador mostrava a João as paisagens que se multiplicavam a distância, com o um grande general que desse a conhecer as minudências dos seus planos a um soldado de confiança. Ante seus olhos surgiam as montanhas da Saneia, o cume de Magedo, as eminências de Gelboé, a figura esbelta do Tabor, onde, mais tarde, ficaria inesquecível o instante da Transfigurarão, o vale do rio sagrado do Cristianismo, os cumes de Rafed, o golfo de Khalfa, o elevado cenário do Pereu, num soberbo conjunto de montes e vales, ao lado das águas cristalinas.
Quem poderia saber qual a conversação solitária que se travara entre ambos? Distanciados no tempo, devemos presumir que fosse, na Terra, a primeira combinação entre o amor e a verdade, para a conquista do mundo. sabemos, porem, que, na manhã imediata, em partindo o precursor na carinhosa companhia de sua, mãe, perguntou Isabel a Jesus, com gracioso interesse : – “não queres vir conosco?” – ao que o pequeno carpinteiro de Nazaré respondeu, profeticamente, com inflexão de profunda bondade'. – “João partirá primeiro”.
Transcorridos alguns anos, vamos encontrar o Batista na sua gloriosa tarefa de preparação do caminho à verdade, precedendo o trabalho divino do amor, que o mundo conheceria em Jesus - Cristo.
João, de fato, partiu primeiro, a fim de executar as operações iniciais para a grandiosa conquista. Vestido de peles e entanto de mel selvagem, esclarecendo com energia e deixando-se degolar em testemunho à, Verdade, ele precedeu. a lição de. misericórdia e da bondade. O Medre do¿ mestres quis colocar a figura franca e áspera do seu. profeta no limiar de seus gloriosas ensinos e, por isso, encontramos em João Batista um dos mais belos de todos os símbolos imortais do Cristianismo. Salomé representa a futilidade cio mundo, Herodes e sua mulher o convencionalismo político e o interesse particular. João era a verdade, e a verdade, na sua, tarefa de aperfeiçoamento, dilacera e magoa, deixando-se levar aos sacrifícios extremos.
Como a dor que precede As poderosas manifestações da luz no íntimo dos corações, ela recebe o bloco de mármore bruto e lhe trabalha as asperezas para que a obra do amor surja, em sua pureza divina. João Batista foi a voz clamante do deserto. Operário da primeira hora, é ele o símbolo rude da verdade que arranca as mais fortes raízes do mundo, para que o reino de Deus prevaleça nos corações. Exprimindo a austera disciplina que antecede a espontaneidade do amor, a luta para que se desfaçam as sombras do caminho, João é o primeiro sinal o cristão ativo, em guerra com as próprias imperfeições do seu mundo interior, a fim de estabelecer em si mesmo o santuário de sua realização com o Cristo. Foi por essa razão que dele disse Jesus : – “Dos nascidos de mulher, João Batista é o maior de todos.”
domingo, 28 de setembro de 2008
"EU " CONTRA "EU"
Quando o Homem ainda jovem desejou cometer o primeiro desatino, aproximou-se o Bom Senso e observou-lhe.
-Detém-te! Por que te confias assim ao mal?
O interpelado, porém respondeu orgulhoso:
-Eu quero.
Passando, mais tarde, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:
-Pára! Por que te consagras, desse modo, ao gasto inconseqüente?
Ele, contudo, esclareceu jactancioso:
-Eu posso.
Mais tarde, mobilizando os outros a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou, piedosa:
-Reflete! Por que te não compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?
O infeliz, todavia, redargüiu colérico.
-Eu mando.
Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando poderia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:
-Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias?
E o mísero informou:
-Eu ordeno.
Praticando atos condenáveis, que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele e recomendou?
-Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?
O infortunado, entretanto, acentuou implacável:
-Eu exijo.
E assim viveu o Homem, acreditando-se o centro do Universo, reclamando, oprimindo e dominando, sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra, até que, um dia, a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico.
O desditoso entendeu a gravidade do acontecimento, prosternou-se diante dela e considerou:
-Morte, por que me buscas?
-Eu quero - disse ela.
-Por que me constranges a aceitar-te? - gemeu triste.
-Eu posso-retrucou a visitante.
-Como podes atacar-me deste modo?
-Eu mando.
-Que poderes te movem?
-Eu ordeno.
-Defender-me-ei contra ti clamou o Homem, desesperado, duelarei e receberás a minha maldição!...
Mas a Morte sorriu imperturbável, e afirmou:
-Eu exijo.
E, na luta do "eu", contra "eu", conduziu-o à casa da Verdade para maiores lições.
-Detém-te! Por que te confias assim ao mal?
O interpelado, porém respondeu orgulhoso:
-Eu quero.
Passando, mais tarde, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:
-Pára! Por que te consagras, desse modo, ao gasto inconseqüente?
Ele, contudo, esclareceu jactancioso:
-Eu posso.
Mais tarde, mobilizando os outros a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou, piedosa:
-Reflete! Por que te não compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?
O infeliz, todavia, redargüiu colérico.
-Eu mando.
Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando poderia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:
-Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades alheias?
E o mísero informou:
-Eu ordeno.
Praticando atos condenáveis, que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele e recomendou?
-Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?
O infortunado, entretanto, acentuou implacável:
-Eu exijo.
E assim viveu o Homem, acreditando-se o centro do Universo, reclamando, oprimindo e dominando, sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra, até que, um dia, a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico.
O desditoso entendeu a gravidade do acontecimento, prosternou-se diante dela e considerou:
-Morte, por que me buscas?
-Eu quero - disse ela.
-Por que me constranges a aceitar-te? - gemeu triste.
-Eu posso-retrucou a visitante.
-Como podes atacar-me deste modo?
-Eu mando.
-Que poderes te movem?
-Eu ordeno.
-Defender-me-ei contra ti clamou o Homem, desesperado, duelarei e receberás a minha maldição!...
Mas a Morte sorriu imperturbável, e afirmou:
-Eu exijo.
E, na luta do "eu", contra "eu", conduziu-o à casa da Verdade para maiores lições.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
CARTA DESPRETENSIOSA
Meu caro. Recebi seus apontamentos.
Sei que me não aceitará a resposta com o desejável entendimento. Se ainda me guarda na lembrança, não me tolera a sobrevivência.
Ler-me-á as palavras, longe daquele acolhimento afetivo da época em que me afundava num escafandro igual ao seu, sob o denso mar do oxigênio terrestre.
Receber-me-á o esforço de agora com extremo espírito crítico. Buscará saber, antes de mais nada, se empreguei os verbos acertadamente e se pontuei a missiva com a
elegância necessária.
Provavelmente dirá que meus recursos empobreceram, que minha argumentação não
convence.
Vamos, contudo, às suas ponderações.
Afirma você que os espíritas desencarnados, pelo noticiário que fornecem ao mundo, se movimentam num plano absolutamente irreal.
A seu ver, moramos em casas ilusórias, cuidamos de instituições que não existem, colhemos flores e frutos de mentira e pairamos, como sombras, num campo de fantasia.
E acrescenta que, para ajuizar de nossa situação, toma por base o mundo em que pisa.
Na apreciação que lhe orienta os conceitos, a esfera em que você ainda respira é a mais sólida de toda a estruturação universal.
Coisa alguma sofre modificação ao redor de seus passos, segundo a posição especialíssima em que se coloca.
Se me demorasse por aí, talvez experimentasse amnésia idêntica. Basta dizer-lhe que enquanto carreguei o fardo benéfico da carne era eu perfeito desmemoriado em relação aos meus próprios defeitos.
E, quanto às minhas necessidades essenciais, nunca atentei para o tempo que corria, célere, em torno de mim.
Quando os amigos me atiraram terra e cal ao corpo inerme, foi que meditei na transitoriedade das situações e das coisas.
Reportei-me então à infância distanciada e revi nossa aldeia do Norte, perseguida pela areia invasora.
Casario e arvoredo converteram-se, pouco a pouco, num montão de ruínas.
Companheiros de jogas infantis desapareceram. Alguns haviam partido à procura de cidades fascinantes, outros jaziam
submersos na neblina da sepultura.
Reajustou-se-me a memória, gradativamente, e tornei, pelos olhos da imaginação, à casa que me viu nascer.
A morte brandira, ali, sua foice enorme, a torto e a direito. A doença lavrara por lá, copiando o fogo em pastagem alcantilada.
Transformações não tinham conta. O padeiro falecera de uma noite para o dia, vencido por um insulto cerebral.
A lavadeira que residia em frente de nós, mulher robusta e desassombrada, repentinamente passou a usar muletas, em razão da perna quebrada.
Nossos vizinhos, de tempos a tempos, trajavam rigoroso luto, homenageando parentes mortos; e até o padre mais velho, que despendia semanas, transmitindo-nos o
catecismo, certa manhã se deixou transportar para o cemitério, quando menos esperávamos.
Tudo se modificava, de hora a hora, até que nos separamos a fim de rever-nos, mais tarde, na Capital da República.
Você fazia o possível por ocultar os males do estômago e eu dissimulava habilmente as perturbações do sistema endócrino.
Seu rosto não era o mesmo. Rugas surpreendentes marcavam-no todo. Seus cabelos, que conhece finos, sedosos e abundantes, estavam ralos e encanecidos.
Seus olhos fitavam-me com firmeza, todavia, injetados de sangue. As mãos bem cuidadas não mostravam a despreocupação do princípio; entretanto, revelavam-se pesadas e grossas, exibindo veias salientes.
Certo, você notou profunda mudança em mim, mas a gentileza lhe asfixiou as observações pessimistas que procurei calar igualmente por minha vez.
E as moças que cortejáramos noutra época, enlevados na paisagem do berço? Algumas
delas, no Rio, embalde tentavam recursos contra a jornada implacável da Natureza.
Eram quase irreconhecíveis. Odontólogos exímios não lhes restauravam a boca que namoramos, embevecidos, nos primeiros arroubos da juventude.
Surgiam na avenida, assim como nós ambos, procurando farmácias para, o reumatismo iniciante.
A morte, meu caro, teve o condão de acordar-me as reminiscências.
E considerando a amizade que sempre nos ligou, no cenário humano, rememoro, saudoso, sua própria felicidade longínqua...
Não ignoro que você perdeu os pais, a esposa inesquecível e o filho mais novo que lhe era particularmente querido pelas afinidades sentimentais.
Em dez anos, você mudou de residência quinze vezes, procurando alívio para o coração angustiado, irremediavelmente enfermo...
Seus olhos permanecem fixos no pretérito e, identificado com a sua dor de peregrino, cheio de ouro e vazio de paz, lembro-me, saudosamente, até mesmo de seu belo papagaio que nos divertia, faz quase trinta anos, gritando os nomes de políticos influentes da hora...
Desejaria confortá-lo, revivê-lo, mas... você, apesar de batido pelam desilusões e renovações incessantes, está convencido de que vive no plano mais sólido e inamovível do Universo e acredita que eu seja um vagabundo invisível a contar anedotas destinadas à ingenuidade humana.
Você, homem de carne e osso, declara-se imutável e assevera que não passo de sombra
a voltar do país da morte.
Como poderá um fantasma consolar um homem seguro de ai, a ponto de julgar-se intangível?
Decididamente, você tem toda a razão.
Sei que me não aceitará a resposta com o desejável entendimento. Se ainda me guarda na lembrança, não me tolera a sobrevivência.
Ler-me-á as palavras, longe daquele acolhimento afetivo da época em que me afundava num escafandro igual ao seu, sob o denso mar do oxigênio terrestre.
Receber-me-á o esforço de agora com extremo espírito crítico. Buscará saber, antes de mais nada, se empreguei os verbos acertadamente e se pontuei a missiva com a
elegância necessária.
Provavelmente dirá que meus recursos empobreceram, que minha argumentação não
convence.
Vamos, contudo, às suas ponderações.
Afirma você que os espíritas desencarnados, pelo noticiário que fornecem ao mundo, se movimentam num plano absolutamente irreal.
A seu ver, moramos em casas ilusórias, cuidamos de instituições que não existem, colhemos flores e frutos de mentira e pairamos, como sombras, num campo de fantasia.
E acrescenta que, para ajuizar de nossa situação, toma por base o mundo em que pisa.
Na apreciação que lhe orienta os conceitos, a esfera em que você ainda respira é a mais sólida de toda a estruturação universal.
Coisa alguma sofre modificação ao redor de seus passos, segundo a posição especialíssima em que se coloca.
Se me demorasse por aí, talvez experimentasse amnésia idêntica. Basta dizer-lhe que enquanto carreguei o fardo benéfico da carne era eu perfeito desmemoriado em relação aos meus próprios defeitos.
E, quanto às minhas necessidades essenciais, nunca atentei para o tempo que corria, célere, em torno de mim.
Quando os amigos me atiraram terra e cal ao corpo inerme, foi que meditei na transitoriedade das situações e das coisas.
Reportei-me então à infância distanciada e revi nossa aldeia do Norte, perseguida pela areia invasora.
Casario e arvoredo converteram-se, pouco a pouco, num montão de ruínas.
Companheiros de jogas infantis desapareceram. Alguns haviam partido à procura de cidades fascinantes, outros jaziam
submersos na neblina da sepultura.
Reajustou-se-me a memória, gradativamente, e tornei, pelos olhos da imaginação, à casa que me viu nascer.
A morte brandira, ali, sua foice enorme, a torto e a direito. A doença lavrara por lá, copiando o fogo em pastagem alcantilada.
Transformações não tinham conta. O padeiro falecera de uma noite para o dia, vencido por um insulto cerebral.
A lavadeira que residia em frente de nós, mulher robusta e desassombrada, repentinamente passou a usar muletas, em razão da perna quebrada.
Nossos vizinhos, de tempos a tempos, trajavam rigoroso luto, homenageando parentes mortos; e até o padre mais velho, que despendia semanas, transmitindo-nos o
catecismo, certa manhã se deixou transportar para o cemitério, quando menos esperávamos.
Tudo se modificava, de hora a hora, até que nos separamos a fim de rever-nos, mais tarde, na Capital da República.
Você fazia o possível por ocultar os males do estômago e eu dissimulava habilmente as perturbações do sistema endócrino.
Seu rosto não era o mesmo. Rugas surpreendentes marcavam-no todo. Seus cabelos, que conhece finos, sedosos e abundantes, estavam ralos e encanecidos.
Seus olhos fitavam-me com firmeza, todavia, injetados de sangue. As mãos bem cuidadas não mostravam a despreocupação do princípio; entretanto, revelavam-se pesadas e grossas, exibindo veias salientes.
Certo, você notou profunda mudança em mim, mas a gentileza lhe asfixiou as observações pessimistas que procurei calar igualmente por minha vez.
E as moças que cortejáramos noutra época, enlevados na paisagem do berço? Algumas
delas, no Rio, embalde tentavam recursos contra a jornada implacável da Natureza.
Eram quase irreconhecíveis. Odontólogos exímios não lhes restauravam a boca que namoramos, embevecidos, nos primeiros arroubos da juventude.
Surgiam na avenida, assim como nós ambos, procurando farmácias para, o reumatismo iniciante.
A morte, meu caro, teve o condão de acordar-me as reminiscências.
E considerando a amizade que sempre nos ligou, no cenário humano, rememoro, saudoso, sua própria felicidade longínqua...
Não ignoro que você perdeu os pais, a esposa inesquecível e o filho mais novo que lhe era particularmente querido pelas afinidades sentimentais.
Em dez anos, você mudou de residência quinze vezes, procurando alívio para o coração angustiado, irremediavelmente enfermo...
Seus olhos permanecem fixos no pretérito e, identificado com a sua dor de peregrino, cheio de ouro e vazio de paz, lembro-me, saudosamente, até mesmo de seu belo papagaio que nos divertia, faz quase trinta anos, gritando os nomes de políticos influentes da hora...
Desejaria confortá-lo, revivê-lo, mas... você, apesar de batido pelam desilusões e renovações incessantes, está convencido de que vive no plano mais sólido e inamovível do Universo e acredita que eu seja um vagabundo invisível a contar anedotas destinadas à ingenuidade humana.
Você, homem de carne e osso, declara-se imutável e assevera que não passo de sombra
a voltar do país da morte.
Como poderá um fantasma consolar um homem seguro de ai, a ponto de julgar-se intangível?
Decididamente, você tem toda a razão.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
GRANDE ALÉM
Nos mais estranhos lugares do mundo, todas as pessoas trazem o passaporte invisível para o Grande Além. O esquimó e o europeu, o hotentote e o americano encaminham-se, diariamente, para o mesmo fim.
Em algumas antigas regiões asiáticas, a roupa velha dos viajantes, que atravessam as fronteiras da morte, é confiada aos abutres famintos, e, nas cidades supercivilizadas dos tempos modernos, as vestes rotas dos que demandam o invisível são consumidas no forno crematório ou abandonadas à cinza do sepulcro.
Todos seguirão.
Testas coroadas deixam o trono e o cetro aos aventureiros; filósofos e sábios costumam legar tesouros aos estúpidos; legisladores e estadistas entregam suas obras aos caprichos populares; os amantes afastam-se do objeto de sua adoração, atirando-se à grande experiência. Não valem as lágrimas da dor, nem os argumentos da Ciência. Não prevalecem as invocações do sangue ou da condição. Partem os algozes e as vítimas, os bons e os maus. Sócrates, condenado à cicuta, apenas antecede os seus juízes. Dario e Alexandre, fulgurantes de armaduras, põem-se a caminho, seguidos de todos os vassalos. Nero determina o flagelo dos circos, aciona a maquinaria do martírio e da destruição, fazendo igualmente a grande viagem, através de terríveis circunstâncias.
Quem escapará?
Magos de todas as épocas intentam descobrir o vinho miraculoso da eterna mocidade do corpo físico. Desejando fugir aos imperativos: da consciência, tenta o homem esquecer os seus títulos de imortalidade espiritual, com que receberá sempre de acordo com as suas obras, procurando perpetuar o baile de máscaras, onde estima a opressão e disfarça o vício. Entretanto, por mais que sonde os segredos da Mãe Natura, descobrindo rotas aéreas e caminhos subterrâneos, não conseguirá improvisar a invulnerabilidade dos ossos com que se materializa, por tempo determinado, na Terra, atendendo a místicos desígnios da esfera superior. A enfermidade segui-la-á, de perto; se persevera no desequilíbrio, a luta vergastá-lo-á, todos os dias; a morte espera-o, em cada esquina da precipitação ou da imprudência. As vacilações alegres da infância exigir-lhe-ão os graciosos ridículos do princípio e as dolorosas hesitações da velhice reclamarão dele os detestáveis ridículos do fim.
Há sempre, em cada existência, o período de aproveitamento, onde a criatura pode revelar-se. Alguns homens, raros embora, valem-se da ocasião para o esforço supremo da tarefa a que foram chamados a cumprir. A maioria, como deuses caídos, entrega-se às dissipações da prodigalidade, aproveitando o tempo de ser-viço em banquetes de criminosos prazeres.
Do nascente orvalhado ao poente sombrio, o Sol brilha apenas algumas horas, em cada dia do ano. Do berço risonho à sepultura tenebrosa, a vida de um homem fulgura apenas por limitado tempo, no curso da existência que é um dia da eternidade. Vieira faz alguns sermões e desaparece do cenário. Pasteur sofre pela Ciência e termina a missão que o trouxe.
Todos conhecem a verdade da morte. O índio sabe que abandonará sua tribo, como o cientista reconhece que não escapará do último dia do corpo. Todos demandarão a pátria comum, onde o criminoso encontrará o seu inferno e o santo identificará o céu que construiu com o sacrifício e a esperança. Nesse infinito país, existem vales escuros de condenados e montanhas gloriosas onde respiram os justos. Há liberdade e asfixia, luz e treva, alegria e dor, reencontro e separação, recompensa e castigo, júbilo e tormento, novas esperanças e novas desilusões. Ninguém ignora que haverá continuidade de lutas, modificação de aspectos, extinção da oportunidade; no entanto, em toda parte, pulsam rígidos corações de pedra, que reclamam irresponsabilidade e indiferença. Querem a morfina dos prazeres fáceis, com que abreviam à morte.
De quando em quando, rajadas de extermínio cruzam a atmosfera planetária, multiplicando gemidos de angústia e tentando acordar as almas adormecidas na carne. Bocas de fogo precedem o bico de corvos famulentos. Jardins transformam-se em ossuários. A realidade terrível do ódio faz cair as máscaras diplomáticas, a fim de que os agrupamentos humanos se mostrem tais quais são. Milhares de criaturas acorrem ao Grande Além, reconhecendo, mais uma vez, que o sílex e a baioneta, a catapulta e a granada são filhos da mesma ignorância primitivista, em que se mergulham voluntàriamente as criaturas da Terra, há milênios numerosos.
Continuará o seio da vida alimentando a Humanidade sobre milhões de túmulos, e escancarada permanecerá a porta da morte, esperando todos os seres.
Ninguém fugirá.
Mães e filhos, jovens e velhos, ricos e pobres estarão de partida, a qualquer momento. Todos guardam o passaporte final, com que regressam ao país de que procedem. Hóspedes temporários da carne, voltam ao lar comum, onde colherão, de acordo com a semeadura. No pórtico, entre os dois planos, movimenta-se a alfândega da Justiça, que confere asas divinas à consciência reta para os vôos do cimo resplandecente e verifica as algemas pesadas escolhidas pelos criminosos para o mergulho no precipício das sombras.
Grande Além!... Grande Além!... Onde estão na Terra os homens que te recordam? entretanto, na fronte de todos eles permanece o sinal de teu invisível poder!
Em algumas antigas regiões asiáticas, a roupa velha dos viajantes, que atravessam as fronteiras da morte, é confiada aos abutres famintos, e, nas cidades supercivilizadas dos tempos modernos, as vestes rotas dos que demandam o invisível são consumidas no forno crematório ou abandonadas à cinza do sepulcro.
Todos seguirão.
Testas coroadas deixam o trono e o cetro aos aventureiros; filósofos e sábios costumam legar tesouros aos estúpidos; legisladores e estadistas entregam suas obras aos caprichos populares; os amantes afastam-se do objeto de sua adoração, atirando-se à grande experiência. Não valem as lágrimas da dor, nem os argumentos da Ciência. Não prevalecem as invocações do sangue ou da condição. Partem os algozes e as vítimas, os bons e os maus. Sócrates, condenado à cicuta, apenas antecede os seus juízes. Dario e Alexandre, fulgurantes de armaduras, põem-se a caminho, seguidos de todos os vassalos. Nero determina o flagelo dos circos, aciona a maquinaria do martírio e da destruição, fazendo igualmente a grande viagem, através de terríveis circunstâncias.
Quem escapará?
Magos de todas as épocas intentam descobrir o vinho miraculoso da eterna mocidade do corpo físico. Desejando fugir aos imperativos: da consciência, tenta o homem esquecer os seus títulos de imortalidade espiritual, com que receberá sempre de acordo com as suas obras, procurando perpetuar o baile de máscaras, onde estima a opressão e disfarça o vício. Entretanto, por mais que sonde os segredos da Mãe Natura, descobrindo rotas aéreas e caminhos subterrâneos, não conseguirá improvisar a invulnerabilidade dos ossos com que se materializa, por tempo determinado, na Terra, atendendo a místicos desígnios da esfera superior. A enfermidade segui-la-á, de perto; se persevera no desequilíbrio, a luta vergastá-lo-á, todos os dias; a morte espera-o, em cada esquina da precipitação ou da imprudência. As vacilações alegres da infância exigir-lhe-ão os graciosos ridículos do princípio e as dolorosas hesitações da velhice reclamarão dele os detestáveis ridículos do fim.
Há sempre, em cada existência, o período de aproveitamento, onde a criatura pode revelar-se. Alguns homens, raros embora, valem-se da ocasião para o esforço supremo da tarefa a que foram chamados a cumprir. A maioria, como deuses caídos, entrega-se às dissipações da prodigalidade, aproveitando o tempo de ser-viço em banquetes de criminosos prazeres.
Do nascente orvalhado ao poente sombrio, o Sol brilha apenas algumas horas, em cada dia do ano. Do berço risonho à sepultura tenebrosa, a vida de um homem fulgura apenas por limitado tempo, no curso da existência que é um dia da eternidade. Vieira faz alguns sermões e desaparece do cenário. Pasteur sofre pela Ciência e termina a missão que o trouxe.
Todos conhecem a verdade da morte. O índio sabe que abandonará sua tribo, como o cientista reconhece que não escapará do último dia do corpo. Todos demandarão a pátria comum, onde o criminoso encontrará o seu inferno e o santo identificará o céu que construiu com o sacrifício e a esperança. Nesse infinito país, existem vales escuros de condenados e montanhas gloriosas onde respiram os justos. Há liberdade e asfixia, luz e treva, alegria e dor, reencontro e separação, recompensa e castigo, júbilo e tormento, novas esperanças e novas desilusões. Ninguém ignora que haverá continuidade de lutas, modificação de aspectos, extinção da oportunidade; no entanto, em toda parte, pulsam rígidos corações de pedra, que reclamam irresponsabilidade e indiferença. Querem a morfina dos prazeres fáceis, com que abreviam à morte.
De quando em quando, rajadas de extermínio cruzam a atmosfera planetária, multiplicando gemidos de angústia e tentando acordar as almas adormecidas na carne. Bocas de fogo precedem o bico de corvos famulentos. Jardins transformam-se em ossuários. A realidade terrível do ódio faz cair as máscaras diplomáticas, a fim de que os agrupamentos humanos se mostrem tais quais são. Milhares de criaturas acorrem ao Grande Além, reconhecendo, mais uma vez, que o sílex e a baioneta, a catapulta e a granada são filhos da mesma ignorância primitivista, em que se mergulham voluntàriamente as criaturas da Terra, há milênios numerosos.
Continuará o seio da vida alimentando a Humanidade sobre milhões de túmulos, e escancarada permanecerá a porta da morte, esperando todos os seres.
Ninguém fugirá.
Mães e filhos, jovens e velhos, ricos e pobres estarão de partida, a qualquer momento. Todos guardam o passaporte final, com que regressam ao país de que procedem. Hóspedes temporários da carne, voltam ao lar comum, onde colherão, de acordo com a semeadura. No pórtico, entre os dois planos, movimenta-se a alfândega da Justiça, que confere asas divinas à consciência reta para os vôos do cimo resplandecente e verifica as algemas pesadas escolhidas pelos criminosos para o mergulho no precipício das sombras.
Grande Além!... Grande Além!... Onde estão na Terra os homens que te recordam? entretanto, na fronte de todos eles permanece o sinal de teu invisível poder!
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
DAR E DEIXAR
Quando Cirilo Fragoso bateu às portas da Esfera Superior e foi atendido por um anjo que velava, solícito, com surpresa verificou que seu nome não constava entre os esperados do dia.
– Fiz muita caridade – alegou, irritadiço –, doei quanto pude. Protegi os pobres e os doentes, amparei as viúvas e os órfãos. Quanto fiz lhes pertence. Oh! Deus, onde a esperança dos que se entregaram às promessas do Cristo?
E passou a choramingar em desespero, enquanto o funcionário celestial, compadecidamente, lhe observava os gestos.
Fragoso traduzia o próprio pesar com a boca, no entanto, a consciência, como que instalada agora em seus ouvidos, instava com ele a recordar.
Inegavelmente, amontoara vultosos bens. Atingira retumbante êxito nos negócios a que se afeiçoara e desprendera-se do corpo terrestre no cadastro dos proprietários de grande expressão. Não conseguira visitar pessoalmente os necessitados, porque o tempo lhe minguava cada dia, na laboriosa tarefa de preservação da própria fortuna, jamais obtivera folgas para ouvir um indigente, nunca pudera dispensar um minuto às mulheres infelizes que lhe recorriam à casa, entretanto, prevendo a morte que se avizinhava, inflexível, organizara generoso testamento. E assim, agindo à pressa, não se esquecera das instituições piedosas das quais possuía vago conhecimento, inclusive as que ele pretendia criar. Por isso, em quatro dias, dotara-as todas com expressivos recursos, encomendando-se-lhes às preces.
Não se desfizera, pois, de tudo, para exercer o auxilio ao próximo? Não teria sido, porém, mais aconselhável praticar a beneficência, antes da atribulada viagem para o túmulo?
Notando que o coração e a consciência duelavam dentro dele, rogou à entidade angélica tornasse em consideração a legitimidade das suas demonstrações de virtude, reafirmando que a caridade por ele efetuada deveria ser passaporte justo ao acesso ao paraíso.
O benfeitor espiritual declarou respeitar-lhe o argumento, informando, porém, que só mediante provas tangíveis advogar-lhe-ia a causa, junto aos poderes celestes. Trouxesse Fragoso a documentação positiva daquilo que verbalmente apontava e defender-lhe-ia a entrada no Paço da Eterna Luz.
Cirilo deu-se pressa em voltar à Terra e, aflito, extraiu as notas mais importantes, com referência aos legados que fizera às associações pias, presentes e futuras, nas derradeiras horas do corpo, e retornou à presença do amigo espiritual, diante de quem leu em voz firme e confiante:
– Para os velhinhos de diversos refúgios, deixei quatrocentos mil cruzeiros.
Para os doentes de várias agremiações, deixei oitocentos mil cruzeiros.
Para a instalação de um hospital de câncer, deixei seiscentos mil cruzeiros.
Para a fundação do Instituto São Damião, em favor dos leprosos, deixei trezentos mil cruzeiros.
Para a assistência à infância desvalida, deixei quinhentos mil cruzeiros.
Para meus empregados, deixei quatro casas e seis lotes de terras, no valor de um milhão e duzentos mil cruzeiros.
Em mãos do meu testamenteiro, deixei, desse modo, a importância total de três milhões e oitocentos mil cruzeiros, para a realização de boas obras.
Terminada a leitura, reparou que o anjo não se mostrava satisfeito.
Em razão disso, perguntou, ansioso:
– Não terei cumprido, assim, os preceitos de Jesus?
O interpelado, porém, aclarou, triste:
– Fragoso, é preciso pensar. Segundo o Evangelho, bem-aventurado é aquele que dá com alegria. Mas, realmente, você não deu. Suas anotações não deixam margem a qualquer dúvida. Você simplesmente deixou. Deixou, porque não podia trazer.
E porque Cirilo entrasse em aflitiva expectação, o anjo rematou:
– Infelizmente, seu lugar, por enquanto, ainda não é aqui.
De conformidade com os ensinamentos do Mestre Divino, onde situamos o tesouro de nossa vida aí guardaremos a própria alma. Seu testamento não exprime libertação. Quem dá, serve e passa. Quem deixa, larga provisoriamente. Você ainda não se exonerou das responsabilidades para com o dinheiro. Volte ao mundo e ampare aqueles a quem você confiou os bens que lhe foram emprestados pela Providência Divina e, ajudando-os a usá-los na caridade verdadeira, você conhecerá, com experiência própria, o desprendimento da posse. A morte obrigou-o a deixar. Agora, meu amigo, cabe-lhe exercitar a ciência de dar com alma e coração.
Foi assim que Cirilo Fragoso, embora acabrunhado, regressou à esfera dos homens, em espírito, a fim de aprender a beneficência com alicerces na renúncia.
– Fiz muita caridade – alegou, irritadiço –, doei quanto pude. Protegi os pobres e os doentes, amparei as viúvas e os órfãos. Quanto fiz lhes pertence. Oh! Deus, onde a esperança dos que se entregaram às promessas do Cristo?
E passou a choramingar em desespero, enquanto o funcionário celestial, compadecidamente, lhe observava os gestos.
Fragoso traduzia o próprio pesar com a boca, no entanto, a consciência, como que instalada agora em seus ouvidos, instava com ele a recordar.
Inegavelmente, amontoara vultosos bens. Atingira retumbante êxito nos negócios a que se afeiçoara e desprendera-se do corpo terrestre no cadastro dos proprietários de grande expressão. Não conseguira visitar pessoalmente os necessitados, porque o tempo lhe minguava cada dia, na laboriosa tarefa de preservação da própria fortuna, jamais obtivera folgas para ouvir um indigente, nunca pudera dispensar um minuto às mulheres infelizes que lhe recorriam à casa, entretanto, prevendo a morte que se avizinhava, inflexível, organizara generoso testamento. E assim, agindo à pressa, não se esquecera das instituições piedosas das quais possuía vago conhecimento, inclusive as que ele pretendia criar. Por isso, em quatro dias, dotara-as todas com expressivos recursos, encomendando-se-lhes às preces.
Não se desfizera, pois, de tudo, para exercer o auxilio ao próximo? Não teria sido, porém, mais aconselhável praticar a beneficência, antes da atribulada viagem para o túmulo?
Notando que o coração e a consciência duelavam dentro dele, rogou à entidade angélica tornasse em consideração a legitimidade das suas demonstrações de virtude, reafirmando que a caridade por ele efetuada deveria ser passaporte justo ao acesso ao paraíso.
O benfeitor espiritual declarou respeitar-lhe o argumento, informando, porém, que só mediante provas tangíveis advogar-lhe-ia a causa, junto aos poderes celestes. Trouxesse Fragoso a documentação positiva daquilo que verbalmente apontava e defender-lhe-ia a entrada no Paço da Eterna Luz.
Cirilo deu-se pressa em voltar à Terra e, aflito, extraiu as notas mais importantes, com referência aos legados que fizera às associações pias, presentes e futuras, nas derradeiras horas do corpo, e retornou à presença do amigo espiritual, diante de quem leu em voz firme e confiante:
– Para os velhinhos de diversos refúgios, deixei quatrocentos mil cruzeiros.
Para os doentes de várias agremiações, deixei oitocentos mil cruzeiros.
Para a instalação de um hospital de câncer, deixei seiscentos mil cruzeiros.
Para a fundação do Instituto São Damião, em favor dos leprosos, deixei trezentos mil cruzeiros.
Para a assistência à infância desvalida, deixei quinhentos mil cruzeiros.
Para meus empregados, deixei quatro casas e seis lotes de terras, no valor de um milhão e duzentos mil cruzeiros.
Em mãos do meu testamenteiro, deixei, desse modo, a importância total de três milhões e oitocentos mil cruzeiros, para a realização de boas obras.
Terminada a leitura, reparou que o anjo não se mostrava satisfeito.
Em razão disso, perguntou, ansioso:
– Não terei cumprido, assim, os preceitos de Jesus?
O interpelado, porém, aclarou, triste:
– Fragoso, é preciso pensar. Segundo o Evangelho, bem-aventurado é aquele que dá com alegria. Mas, realmente, você não deu. Suas anotações não deixam margem a qualquer dúvida. Você simplesmente deixou. Deixou, porque não podia trazer.
E porque Cirilo entrasse em aflitiva expectação, o anjo rematou:
– Infelizmente, seu lugar, por enquanto, ainda não é aqui.
De conformidade com os ensinamentos do Mestre Divino, onde situamos o tesouro de nossa vida aí guardaremos a própria alma. Seu testamento não exprime libertação. Quem dá, serve e passa. Quem deixa, larga provisoriamente. Você ainda não se exonerou das responsabilidades para com o dinheiro. Volte ao mundo e ampare aqueles a quem você confiou os bens que lhe foram emprestados pela Providência Divina e, ajudando-os a usá-los na caridade verdadeira, você conhecerá, com experiência própria, o desprendimento da posse. A morte obrigou-o a deixar. Agora, meu amigo, cabe-lhe exercitar a ciência de dar com alma e coração.
Foi assim que Cirilo Fragoso, embora acabrunhado, regressou à esfera dos homens, em espírito, a fim de aprender a beneficência com alicerces na renúncia.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
JOANA DE CUZA
Entre a multidão que invariàvelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cuza, intendente de Antipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores.
Joana possuía verdadeira fé; entretanto, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contato com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.
Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:
– Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-la ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, afim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.
Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou :
– Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?
O Cristo sorriu serenamente e retrucou :
– Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias – continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras – por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões : transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deu", apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos : esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando ao teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama ao teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...
Joana do Cuza experimentava um brando alívio no coração. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as ultimas palavras :
– Vai, filha!... Sê fiel!
***
Desde êsse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cuza experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus, como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta.
Procurou esquecer tôdas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos ; ela porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia.
Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento e da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Antipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho, que Deus lhe confiara! Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou e esclarecê-las, alegando que Jesus, igualmente, havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de uma carpintaria singela e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.
Cheia de alegria sincera, a viúva de Cuza esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, quando a neve das experiências do mundo lhe alvejou os primeiros anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.
***
No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.
Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.
– Abjura!... – Exclama um executar das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio. Mas, a antiga discípula ao Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas: – “Repudia a Jesus, minha mãe!...
Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim que sou teu filho!...”
Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.
– Abjura!... Abjura!
Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras... Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de tôdas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: – “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cuza contemplou a primeira vítima ensangüentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:
– Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de tôdas as felicidades transitórias do mando, é preciso ser fiel a Deus!
A êsse tempo, com os, aplausos delirantes do povo, os verdugos incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável.Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. João de Cuza contemplou, com serenidade, a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:
– O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? – Perguntou um dos verdugos.
A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar :
– Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...
Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível:
– Joana, tem bom ânimo!... Eu aqui estou! ...
Joana possuía verdadeira fé; entretanto, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contato com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.
Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:
– Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-la ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, afim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.
Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou :
– Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?
O Cristo sorriu serenamente e retrucou :
– Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias – continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras – por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões : transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deu", apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos : esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando ao teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama ao teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...
Joana do Cuza experimentava um brando alívio no coração. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as ultimas palavras :
– Vai, filha!... Sê fiel!
***
Desde êsse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cuza experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus, como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta.
Procurou esquecer tôdas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos ; ela porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia.
Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento e da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Antipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho, que Deus lhe confiara! Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou e esclarecê-las, alegando que Jesus, igualmente, havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de uma carpintaria singela e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.
Cheia de alegria sincera, a viúva de Cuza esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, quando a neve das experiências do mundo lhe alvejou os primeiros anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.
***
No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.
Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.
– Abjura!... – Exclama um executar das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio. Mas, a antiga discípula ao Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas: – “Repudia a Jesus, minha mãe!...
Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim que sou teu filho!...”
Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.
– Abjura!... Abjura!
Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras... Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de tôdas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: – “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cuza contemplou a primeira vítima ensangüentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:
– Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de tôdas as felicidades transitórias do mando, é preciso ser fiel a Deus!
A êsse tempo, com os, aplausos delirantes do povo, os verdugos incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável.Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. João de Cuza contemplou, com serenidade, a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:
– O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? – Perguntou um dos verdugos.
A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar :
– Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...
Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível:
– Joana, tem bom ânimo!... Eu aqui estou! ...
quarta-feira, 28 de maio de 2008
A MAIOR DÁDIVA
Na assembléia luzida do Templo de Jerusalém, os descendentes do povo escolhido exibiam generosidade invulgar à frente da preciosa arca de contribuições públicas.
Todos traziam algum tributo de consideração ao Santo dos Santos, cada qual mostrando a liberalidade da fé.
Vestes de linho e valiosas peles, enfeites dourados e aromas indefiníveis impunham, ali, deliciosas impressões aos sentidos.
Os fariseus, sobretudo, demonstravam apurado zelo no culto externo, destacando-se pela beleza das túnicas e pelos ricos presentes ao santuário.
Jesus e alguns discípulos, de passagem, acompanhavam as manifestações populares, com justificado interesse. E Judas, entre eles, empolgado pelo volume das oferendas, abeirava-se do cofre aberto, seguindo os menores movimentos dos doadores, com a cobiça flamejante no olhar.
A certa altura, aproximou-se do Messias e informou-o :
– Mestre: Jeroboão, o negociante de tapetes, entregou vinte peças de ouro!...
– Abençoado seja Jeroboão – acentuou Jesus, sereno –, porque conseguiu renunciar a excesso apreciável, evitando talvez pesados desgostos. O dinheiro demasiado, quando não se escora no serviço aos semelhantes, é perigoso tirano da alma.
O discípulo voltou ao posto de observação, com indisfarçável desapontamento, mas, decorridos alguns instantes, reapareceu, notificando:
– Zacarias, o velho perfumista, sentindo-se enfermo e no fim dos seus dias, trouxe cem peças!...
– Bem-aventurado seja ele – disse o Cristo, em tom significativo –, mais vale confiar a fortuna aos movimentos da fé que legá-la a parentes ambiciosos e ingratos...
Zacarias prestou incalculável benefício a ele mesmo.
Judas tornou, de moto próprio, à fiscalização para comunicar, logo após, ao grupo galileu:
– A viúva de Cam, o mercador de cavalos que faleceu recentemente, acaba de entregar todo o dinheiro que recebeu dos romanos pela venda de grande partida de animais.
E, baixando o tom de voz, completava, cauteloso, o apontamento:
– Dizem por aí que alguns centuriões planejavam roubar-lhe os bens...
Jesus sorriu e considerou:
– Muitos recursos amontoados sem proveito provocam as sugestões do mal. Feliz dela que soube preservar-se contra os malfeitores.
O aprendiz curioso regressou à posição e retornou, loquaz :
– Mestre: Efraim, o levita de Cesaréia, entregou duzentas moedas! Duzentas!...
– Bem-aventurado seja Efraim – falou o Amigo Divino, sem afetação –, é grande virtude saber dar o que sobra, em meio de tantos avarentos que se rejubilam à mesa, olvidando os infelizes que não dispõem de uma côdea de pão!...
Nesse instante, penetrou o Templo uma viúva paupérrima, a julgar pela simplicidade com que se apresentava.
Diante do sorriso sarcástico de Judas, o Senhor acompanhou-a, de perto, no que foi seguido pelos demais companheiros.
A mulher humilde orou e apresentou duas moedinhas ao fausto religioso do santuário célebre.
Muitos circunstantes riram-se, irônicos, mas Jesus apressou-se a esclarecer:
– Em verdade, esta pobre viúva deu mais que todos os poderosos aqui reunidos, porquanto não vacilou em confiar ao Templo quanto possuía para o sustento próprio.
A observação caridosa e bela congelou a crítica reinante.
Pouco a pouco, o recinto enorme tornou à calma.
Israelitas nobres e sem nome abandonaram, rumorosamente, o domicílio da fé.
Jesus e os apóstolos foram os derradeiros na retirada.
Quando se dispunham a deixar a enorme sala vazia, eis que uma escrava de rosto avelhentado e passos vacilantes surgiu no limiar para atender à limpeza.
Movimenta-se em minutos rápidos.
Aqui, recolhe flores esmagadas, além, absorve em panos úmidos os detritos deixados por enfermos descuidados.
Tem um sorriso nos lábios e a paciência no olhar, brunindo o piso em silêncio, para que o ar se purificasse na sublime residência da Lei.
Pedro, agora a sós com o Messias, ainda impressionado com as lições recebidas, ousou interrogar:
– Senhor, foi então a viúva pobre a maior doadora no Templo de nosso Pai?
– Realmente – elucidou Jesus, em tom fraterno –, a viúva deu muitíssimo, porque, enquanto os grandes senhores aqui testemunharam a própria vaidade, com inteligência, desfazendo-se de bens que só lhes constituíam embaraço à tranqüilidade futura, ela entregou ao Todo-Poderoso aquilo que significava alimento para o próprio corpo...
Em seguida a leve pausa, apontou com o indicador a serva anônima que se incumbia da limpeza sacrificial e concluiu :
– A maior benfeitora para Deus, aqui, no entanto, ainda não é a viúva humilde que se desfez do pão de um momento... É aquela mulher dobrada de trabalho, frágil e macilenta, que está fornecendo à grandeza do Templo o seu próprio suor.
Todos traziam algum tributo de consideração ao Santo dos Santos, cada qual mostrando a liberalidade da fé.
Vestes de linho e valiosas peles, enfeites dourados e aromas indefiníveis impunham, ali, deliciosas impressões aos sentidos.
Os fariseus, sobretudo, demonstravam apurado zelo no culto externo, destacando-se pela beleza das túnicas e pelos ricos presentes ao santuário.
Jesus e alguns discípulos, de passagem, acompanhavam as manifestações populares, com justificado interesse. E Judas, entre eles, empolgado pelo volume das oferendas, abeirava-se do cofre aberto, seguindo os menores movimentos dos doadores, com a cobiça flamejante no olhar.
A certa altura, aproximou-se do Messias e informou-o :
– Mestre: Jeroboão, o negociante de tapetes, entregou vinte peças de ouro!...
– Abençoado seja Jeroboão – acentuou Jesus, sereno –, porque conseguiu renunciar a excesso apreciável, evitando talvez pesados desgostos. O dinheiro demasiado, quando não se escora no serviço aos semelhantes, é perigoso tirano da alma.
O discípulo voltou ao posto de observação, com indisfarçável desapontamento, mas, decorridos alguns instantes, reapareceu, notificando:
– Zacarias, o velho perfumista, sentindo-se enfermo e no fim dos seus dias, trouxe cem peças!...
– Bem-aventurado seja ele – disse o Cristo, em tom significativo –, mais vale confiar a fortuna aos movimentos da fé que legá-la a parentes ambiciosos e ingratos...
Zacarias prestou incalculável benefício a ele mesmo.
Judas tornou, de moto próprio, à fiscalização para comunicar, logo após, ao grupo galileu:
– A viúva de Cam, o mercador de cavalos que faleceu recentemente, acaba de entregar todo o dinheiro que recebeu dos romanos pela venda de grande partida de animais.
E, baixando o tom de voz, completava, cauteloso, o apontamento:
– Dizem por aí que alguns centuriões planejavam roubar-lhe os bens...
Jesus sorriu e considerou:
– Muitos recursos amontoados sem proveito provocam as sugestões do mal. Feliz dela que soube preservar-se contra os malfeitores.
O aprendiz curioso regressou à posição e retornou, loquaz :
– Mestre: Efraim, o levita de Cesaréia, entregou duzentas moedas! Duzentas!...
– Bem-aventurado seja Efraim – falou o Amigo Divino, sem afetação –, é grande virtude saber dar o que sobra, em meio de tantos avarentos que se rejubilam à mesa, olvidando os infelizes que não dispõem de uma côdea de pão!...
Nesse instante, penetrou o Templo uma viúva paupérrima, a julgar pela simplicidade com que se apresentava.
Diante do sorriso sarcástico de Judas, o Senhor acompanhou-a, de perto, no que foi seguido pelos demais companheiros.
A mulher humilde orou e apresentou duas moedinhas ao fausto religioso do santuário célebre.
Muitos circunstantes riram-se, irônicos, mas Jesus apressou-se a esclarecer:
– Em verdade, esta pobre viúva deu mais que todos os poderosos aqui reunidos, porquanto não vacilou em confiar ao Templo quanto possuía para o sustento próprio.
A observação caridosa e bela congelou a crítica reinante.
Pouco a pouco, o recinto enorme tornou à calma.
Israelitas nobres e sem nome abandonaram, rumorosamente, o domicílio da fé.
Jesus e os apóstolos foram os derradeiros na retirada.
Quando se dispunham a deixar a enorme sala vazia, eis que uma escrava de rosto avelhentado e passos vacilantes surgiu no limiar para atender à limpeza.
Movimenta-se em minutos rápidos.
Aqui, recolhe flores esmagadas, além, absorve em panos úmidos os detritos deixados por enfermos descuidados.
Tem um sorriso nos lábios e a paciência no olhar, brunindo o piso em silêncio, para que o ar se purificasse na sublime residência da Lei.
Pedro, agora a sós com o Messias, ainda impressionado com as lições recebidas, ousou interrogar:
– Senhor, foi então a viúva pobre a maior doadora no Templo de nosso Pai?
– Realmente – elucidou Jesus, em tom fraterno –, a viúva deu muitíssimo, porque, enquanto os grandes senhores aqui testemunharam a própria vaidade, com inteligência, desfazendo-se de bens que só lhes constituíam embaraço à tranqüilidade futura, ela entregou ao Todo-Poderoso aquilo que significava alimento para o próprio corpo...
Em seguida a leve pausa, apontou com o indicador a serva anônima que se incumbia da limpeza sacrificial e concluiu :
– A maior benfeitora para Deus, aqui, no entanto, ainda não é a viúva humilde que se desfez do pão de um momento... É aquela mulher dobrada de trabalho, frágil e macilenta, que está fornecendo à grandeza do Templo o seu próprio suor.
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