terça-feira, 8 de dezembro de 2009

LAVANDO A CONSCIÊNCIA

O ano era 1727. Em uma pequena cidade no interior da Inglaterra.

Chovia muito naquele dia. Na livraria, a única da cidade, um senhor em avançada idade, entre crises de tosse, pois sofria de asma, colocava livros em algumas caixas e ajeitava outros nas estantes, preparando a loja para ser aberta. No balcão um jovem com 18 anos, rosto redondo, lia compenetrado. Tão compenetrado estava que, ao menos assim parecia, sequer notava as seguidas crises de tosse do velho senhor.
- Sammuel, - disse o senhor - hoje é dia de feira. Você poderia ir em meu lugar. Pelo menos uma vez.

O jovem Sammuel, parecia realmente tão absorto em sua leitura que não mostrou nenhuma reação. Então, o velho senhor continuou, entre muita tosse, o seu trabalho de ajeitar os livros. Alguns nas caixas, outros nas estantes.

- Sammuel, - o senhor voltou a falar - a chuva está muito forte. Com toda a certeza será prejudicial à minha saúde. Pelo menos hoje você poderia levar os livros à feira.

E Sammuel, continuou sua leitura.

Mais uma vez o velho, já colocando a caixa de livros à porta, pediu ao jovem,
- Sammuel, está na hora do cocho. Por favor, vá à feira em meu lugar.

E mais uma vez não obteve resposta. Apanhou a pesada caixa e partiu.

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O ano era 1777. Em uma pequena cidade no interior da Inglaterra.

Chovia muito naquele dia. Próximo à feira, estaciona uma elegante carruagem e dela desembarca um senhor. Elegante, rosto redondo, sem se proteger caminha até uma abandonada barraca, e ali permanece. Passam-se horas. As pessoas que circulam estranham aquele excêntrico senhor, imóvel junto à uma abandonada barraca, sem nenhuma proteção, debaixo daquela insistente chuva.

Ao final da manhã, o homem recoloca o chapéu na cabeça e caminha, à lentos passos, de volta à carruagem.

Ao chegar à hospedaria, a senhora que o recebe lhe indaga,
- Dr. Sammuel, que idéia foi essa? Segundo eu soube o senhor ficou todo este tempo na feira, debaixo desta chuva...

- Minha senhora, há exatos cinqüenta anos, meu pai morreu, vitimado por uma crise de asma. Eu, displicente e preguiçoso, nada fiz que pudesse ter lhe ajudado. Espero que com esta humilhação pública eu consiga lavar minha consciência, livrando-a deste enorme e pesado fardo.

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